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Xamanismo: A busca de uma definição Imprimir E-mail
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Notícias - Cultura ancestral
Escrito por LuaEstrela   

Xamanismo: A busca de uma definição

Enviado por: "Nicolaz" no grupo [arvore_sagrada]

Nos primórdios da humanidade, os seres humanos, sentiam-se frágeis perante as forças da natureza e temiam aqueles que não pertenciam aos seus clãs, animais, etc. Para suprir essas carências, surge o xamã como um "organizador do caos" para despertar a consciência.Assim eles recorriam àquele que era concebido como um guerreiro que atuava com armas espirituais, que faziam a ponte entre o mundo dos homens e espíritos.

A palavra xamã tem sua raiz na Sibéria, vinda da palavra “saman”, aparentado com o termo sânscrito “sramana” que significa “inspirado pelos espíritos” O xamã pode ser homem ou mulher. O termo xamã foi adotado, pela antropologia, para se referir a pessoas de uma grande variedade de culturas não ocidentais, que antes eram conhecidas como : bruxo, feiticeiro, curandeiro, mago, mágico, vidente, sacerdote, pajé, homem da medicina, o terapeuta, o conselheiro, o contador de estórias, o líder espiritual, etc, e referindo-se ao xamanismo como um conjunto de crenças ancestrais que estabelecem contato com uma realidade oculta, ou estados especiais (alterados) de consciência, a fim de obter conhecimento, poder, equilíbrio saúde para si mesmo e para as pessoas

Quando a maioria das pessoas, atualmente, ouve a palavra xamanismo, pensam em culturas indígenas americanas, outros reclamam por que não pajelanças se estão no Brasil, mas sempre considerado como “programa de índio”. O xamanismo não se refere apenas à espiritualidade indígena, e óbvio que foram os indígenas os grandes responsáveis por manterem acessas as chamas da “Medicina da Terra” mas as práticas se originaram no “homem primitivo”, no paleolítico. A palavra tem origem siberiana e não americana e é usada hoje, como uma forma única para descrever as práticas no mundo todo. Ou seja, as práticas são universais, é um legado do Mundo Espiritual para a Humanidade. Não pode haver fronteiras.

As raízes do xamanismo são arcaicas, e alguns antropólogos chegam a pensar que elas recuam até quase tão longe quanto a própria consciência humana.As origens do xamanismo datam de 40.000 a 50.000 anos, na Idade da Pedra. Antropólogos têm estudado xamanismo nas Américas; do Norte, Central, Sul. Na África, entre os povos aborígines da Austrália, entre os Esquimós, na Indonésia, Malásia, Senegal, Patagonia, Sibéria, Bali, Velha Inglaterra e ao redor da Europa, no Tibet onde o xamanismo Bon segue a linha do Budismo Tibetano, em todos os lugares ao redor do mundo. Seus traços estão presentes nas Grandes religiões. O primeiro tratado vem da Sibéria (altaicos, iacutes, buriatas, tungues, vogul, samoiedos, etc.). Uma fonte acredita que os homens/xamãs teriam emigrado durante as grandes glaciações, seguindo rebanhos de renas. Eles passaram pelo estreito de Bering, ou por uma ponte terrestre que ligava os dois continentes e se espalharam pelo mundo.

Tanto no Mexico, USA, Austrália, Africa, America do Sul, Sibéria, etc, é interessante notar similaridade em alguns rituais e na cosmologia de todos esses povos xamânicos no mundo. Faz pensarmos que todos vieram de uma mesma fonte de conhecimento.

Os xamãs carregam o conhecimento espiritual e da vida, passados oralmente, lembrando a sabedoria dos antepassados. Eles conduzem os ritos de passagem, encorajam a comunidade para enfrentar os desafios, aglutinam a consciência comunitária, criando uma identidade grupal. O xamã é um especialista do Sagrado.

Ele é capaz de mover-se entre os diversos estados de consciência. O xamã é uma pessoa que trabalha em Estado Alterado de Consciência ( estado extático, transe, estado transcendente - onde a pessoa percebe uma "realidade incomum".) e deve conhecer os métodos básicos para realizar esse trabalho. Os xamãs são grandes conhecedores da floresta e das propriedades das plantas .

O xamã é o especialista do invisível. É considerado um indivíduo estranho, pois ele está fora do mundo.

Vive fora dos padrões normais. O universo do xamã é um mundo simbólico onde ele atribui mais poder que ao universo ordinário.

O xamã, não se autoproclama. Ele é chamado para suas tarefas espirituais, passa por treinamentos e então é reconhecido pelas pessoas de sua comunidade.Trata-se de um sacerdócio. É uma missão de utilidade pública.

A iniciação tem um fundamento nas bênçãos recebidas pelos instrutores que passam uma espécie de "autorização espiritual" para conduzir cerimônias. Isso é honrar o conhecimento e não usurpar, e nem banalizar o processo de iniciação espiritual

Sua vocação é demonstrada por perturbações no comportamento ( loucura controlada), vem também por transmissão hereditária, por decisão pessoal onde passa por provas (jejuns, recolhimentos, sacrifícios corporais...) ou é eleito pelo clã. Iniciado pelos espíritos tem uma vivencia de morte simbólica para posterior ressurreição. Permanece dias em locais isolados sem falar, comer, e, quase sem respirar. Geralmente conta em suas provas, ao regressar de sua viagens que seus ossos foram arrancados, sua carne raspada, tem a cabeça decepada, isto é o coma iniciático. Ele deve morrer em seu corpo terrestre para renascer em corpo astral. Esqueletos de pessoas, pássaros ou animais, são alguns dos ornamentos dos siberianos. Simboliza o tempo do nascimento do xamã - meio homem - meio animal.

Muitas iniciações também envolvem atravessar brasas ( Manchus), nadar sobre o gelo, beber sangue (goldos). Entre os Iacutes, no alto de uma montanha, com o mestre no território das doenças, ensina-se a reconhecer a doença e curá-las. Para cada parte do corpo ele cospe na boca do outro, que deve engolir o seu cuspe para diagnosticar a doença. Os Buriatas faziam a purificação pela água (batismo) com plantas aromáticas e algumas gotas de sangue de bode, para invocar os ancestrais.

Segundo Mircea Eliade uma pessoa torna-se xamã por: 1) vocação espontânea (chamamento ou eleição); 2) transmissão hereditária da profissão xamânica e 3) por decisão pessoal ou, mais raramente pela vontade do clã. Mas independentemente do método de seleção, um xamã só é reconhecido como tal no fim de uma dupla instrução: 1) de ordem extática (sonhos, visões, transes, etc.) e 2) de ordem tradicional (técnicas xamânicas, nomes e funções dos espíritos, mitologia e genealogia do clã, linguagem secreta, etc.). É sobretudo a síndrome da vocação mística que nos interessa. O futuro xamã singulariza-se por um comportamento estranho; procura a solidão, torna-se sonhador, adora vaguear nos bosques ou lugares desertos, tem visões, canta durante o sono, etc

Faziam também parte das iniciações o calor (tenda do suor) e com plantas de poder, que proporcionavam o arrebatamento místico, viagens astrais etc. Parte-se de um princípio que neste mundo nada é dado de presente, tem que ser aprendido.Aquele que tem por destino ser xamã experimenta um certo mal estar, um certo tédio pela vida, tédio de viver num mundo demasiadamente seguro, sensibilidade voltada para o misticismo e para as forças do inconsciente.

Trata-se de um sacerdócio. Muitas pessoas querem ser xamãs sem conhecerem as obrigações inerentes a essa função, a entrega. É uma missão de utilidade pública. Várias pessoas se denominam, mas o que determina é o trabalho espiritual. Tem gente que se denomina ator político, técnico de futebol, terapeuta, professor. Tem gente que se denomina espiritualista. Tem gente que se denomina Pai-de-Santo. Enfim, no xamanismo também!

Atualmente existem muitas pessoas que se autodenominam xamãs, que no final das contas aprenderam alguns conceitos, mas nunca foram numa floresta, nunca foram a estados profundos de consciência, mas estão dando aulas.

É uma iniciação séria e não uma prática, que se aprende em um final de semana. Um xamã transformou a sua vida, conseguiu a sua cura através de profundos processos de morte e renascimento, lidou com perdas, enfrentou entidades, enfrentou sua própria sombra, e obteve o conhecimento essencial e o reconhecimento de seus instrutores para poder compartilhar com os outros. Lembro também que xamanismo não é só praticas de rituais e cerimônias, e sim uma forma de vida, uma nova visão do mundo, que se aplica, primeiramente no condutor. São anos de preparação. Está além dos rituais é um jeito de viver .Ser um xamã é abraçar um sacerdócio, não é um trabalho somente terapêutico, é uma caridade de alto risco, é assumir uma responsabilidade com o Universo de viver em harmonia com a natureza, de ajudar o próximo, de transformar o ambiente em que vive, de ser aparelho de transformações nas pessoas que dele se aproximam. Uma mudança radical, profunda, verdadeira. Ser xamã não é uma profissão, é um dom.

Ninguém, entretanto, precisa ser um xamã para praticar xamanismo. Você pode ir à missa, sem se tornar um padre. Ser xamã Implica em iniciações e transformações de profundo significado que visam preparar o aprendiz para ajudar o próximo, e passar a sua vida nisso. Não são todos os que estão preparados para abrirem suas vidas para se dedicarem verdadeiramente ao outro. Não se aprende a ser xamã em salões de espaços esotéricos. Neles você encontrará as práticas xamânicas, que lhe colocarão em contato com a egrégora, isto, se o condutor for realmente um iniciado e não um oportunista que nunca se entregou a processos de morte e transformação e só fez o caminho das flores sem tocar nos espinhos. No xamanismo também aprendemos a lidar com o Mundo da ilusão.

Perante a sociedade atual em que vivemos é a mesma coisa. Não basta ter conhecimentos médicos, se a sociedade não dá um diploma não é possível exercer a medicina de forma legal. Não basta ter conhecimento sobre as emoções, se não receber um diploma, ou melhor, se não há uma formatura, é possível ser conselheiro, mas não psicólogo ou psiquiatra. Tudo que é sério requer um ritual de passagem, uma iniciação.

Muitos buscadores percebem um pequeno FLASH de luz, achando que já estão iluminados, e depois percebem, com ocorrências na sua própria vida, o que é ilusão do poder.

As tradições, as escolas iniciáticas, as religiões, as organizações, garantem que o trabalho do ego esteja dentro de uma unidade. Ou seja, não vai da cabeça de cada um que já se acha pronto, e sim, passo a passo, após uma busca incansável e dedicação, e a confiança na continuidade do trabalho espiritual. É assim nas Escolas Iniciáticas, nas artes marciais, nas escolas de formação educacional, nos esportes, na vida profissional... Alguns Mestres Espirituais já vieram prontos como Jesus, Buda, Lao Tsé e também passaram por seus aprendizados.

A palavra xamanismo foi criada por antropólogos para definir um conjunto de crenças ancestrais, que para mim, é um caminho de conhecimento. Nós podemos perceber traços do xamanismo em várias religiões.

No sentido do "religare" pode ser considerada uma religião. Mas o xamanismo não é como um conjunto de ritos específicos que seguem seus mestres máximos como cristianismo (Cristo), budismo (Buda), islamismo (Maomé), Taoísmo (Lao-Tsé), etc; cujas práticas são determinadas e iguais, possuem seus Livros Sagrados de conduta em todos os lugares do mundo.

Pode-se dizer que as religiões representam um xamanismo adaptado e que, por sua vez, afetaram as tradições xamânicas continuadas ou marginalizadas, nas culturas que dominaram.As práticas, os mitos, as entidades dependem da tribo, linha, geografia, crenças...O xamã é sempre uma figura dominante, e não um santo um avatar ou um profeta.O xamã é um intermediário entre o mundo espiritual da natureza e a tribo.

Mas, na essência são práticas religiosas. O xamanismo é um fenômeno religioso que se supõe ter sua origem na Ásia Central e Setentrional e das regiões árticas norte-européias Encontram-se fenômenos xamânicos similares entre os esquimós, índios das Américas; do Norte, Central e Sul; na Oceania, na Austrália, no sudeste asiático; e enfim, na Índia, no Tibet e na China. Trata-se, aqui, de um conjunto de práticas evidentemente adaptadas a cada cultura, a cada crença, mas que em toda parte apresenta o mesmo conteúdo mágico, religioso e simbólico.

A Medicina da Terra é derivada de conhecimentos medicinais, passados pelos ancestrais, que são honrados por aqueles que recebem a iniciação. O guichê mais ultrapassado é aquele em que o iniciado tenta "matar” simbolicamente seu iniciador, ao invés de honrá-lo. Isso é enfraquecer a raiz pela qual ele foi formado, uma auto-sabotagem espiritual. O entendimento disso faz com que o discipulado crie conscientemente um movimento de afinidade que traz harmonia no resultado.

Quando percebemos a conexão Universal entre nós, todos os que viveram, que estamos todos ligados, conectados, compreendemos que todas as histórias fazem parte da nossa história. A consciência da conexão é vital ao aprendizado da convivência mútua. Ninguém vence sozinho. Todos temos a necessidade de nos conectar com algo fora de nós - com nossos companheiros de caminhada e com algo maior que nós todos. No xamanismo, procuramos aprender com as vozes dos ancestrais, dos velhos, das tradições, das crenças. Esse aprendizado é básico para podermos traçar o mapa de nosso caminho, de acordo com o livre arbítrio.

O "conhecimento" é para todos, mas "sabedoria" é para alguns. Por isso, acho importante a divulgação do conhecimento e aplicação prática dele, pois existe ainda uma minoria que se transforma. É como um garimpo! Entre esses buscadores do conhecimento sempre sai uma pepita de ouro, que vai fazer o mundo mais brilhante. Por essas pepitas vale a pena. E, o coração do verdadeiro iniciado tem que se confortar com isso, pois sempre é a minoria. Por outro lado existe um outro fenômeno. Algumas pessoas lançam-se à determinadas práticas, sem o devido conhecimento e sem as "bênçãos espirituais" Ou seja, ação sem conhecimento. O que pode ser mais problemático ainda.

Muitos iniciam a caminhada, mas poucos atingem as maiores alturas. E, não está limitada aos iluminados, é disponível para todos nós, dependendo da sinceridade, humildade com que a buscamos. Sabedoria xamânica é a sabedoria da Mãe Terra e, a cada filho dela, é dado um presente, algum talento especial.

O xamã compreende o Círculo Sagrado da vida e recomenda, ajuda na cura e ensina o que é necessário para o bem comum da comunidade.Isto significa freqüentemente colocar a comunidade em primeiro plano. O caminho xamânico conduz a um relacionamento de amor com a Mãe Terra. Não é possível praticar o verdadeiro xamanismo, sem incluir os cuidados com a preservação da vida de todos os reinos (animal, mineral, vegetal, espiritual) em nosso planeta.

O xamanismo aparece como um reflexo de um “Grande Espírito”, que pode ter vários nomes. É honrado o Criador e todas as suas criaturas, sejam pedras, animais, aves, plantas, peixes, insetos, águas, ventos, etc., que compartilhamos a existência nesta vida. Essa consciência, esse alinhamento com as forças da natureza, transforma-se em poder de cura e expande habilidades psíquicas, através da reconexão com a vida, com o Sagrado, com o mistério da Criação.

O foco das práticas do xamanismo centra-se nos ritmos cíclicos da natureza: nascimento, morte e renascimento, a complementaridade masculino e feminino, o contato pessoal individual com ambiente imediato da terra, com as forças da terra do sol, da lua e das estrelas. Um verdadeiro xamã,enfrentou suas sombras, que enfrentou e venceu seus medos : da insanidade, da solidão, do orgulho, da vaidade e dos vícios;da doença, ao passar por mortes em vida. Depois disso escolhe torna-se curador curado, auxiliador, profeta, visionário, à serviço das pessoas.

No xamanismo ao redor do mundo podemos ver as similaridades que definem as práticas :

o A Busca por estados Alterados de Consciência – Vôo da Alma / Êxtase. O xamã é um especialista e um mestre da viagem estática

o A capacidade de viajar em espírito assumindo a forma de um animal ou ave, ou diretamente através daquilo a que chamaríamos de experiência fora-do-corpo. Este vôo mágico é um dos fundamentos do xamanismo

o Viagem por mundos paralelos ( Reino dos Espíritos). Mundos invisíveis à realidade ordinária, a fim de guiar espíritos, obter conhecimento espiritual.

o Trabalho como canal de cura, o conhecimento do poder das plantas, pedras, dos espíritos animais e seres da natureza.

o Devoção à Criação : O Sol, a Lua, as Estrelas, o reconhecimento da presença de Deus em todas as manifestações do Universo


o Interação com espíritos da natureza

o Utilização de instrumentos de poder para induzir ao transe /estados alterados de consciência (tambores, maracás, etc)

o Conhecimento sobre o fogo

o Utilização de plantas (purificação, enteógenas, medicinais, magnéticas)

o Canções de Poder

o Danças

o Respiratórios e dietas

o Contação de histórias, preleções.

Xamanismo como a mais antiga prática espiritual da humanidade, o respeito pela ecologia, o reconhecimento do Sagrado, a necessidade de expandir a consciência e obter resposta em mundos paralelos, a prática do amor incondicional são a base das práticas.

A prática estabelece contato com outros planos de consciência, a fim de obter conhecimento, poder, equilíbrio, saúde.Propicia tranqüilidade, paz, profunda concentração, estimula o bem estar físico, psicológico e espiritual.

No xamanismo, praticado na atualidade, também podemos ler a “Magia dos Elementos” assim: A Terra é relacionada com o corpo físico, e com as sensações.A Água é relacionada com a alma e com as emoções e sentimentos.

O ar é relacionado com a mente, pensamentos e idéias. O fogo é relacionado com o espírito e associado à consciência, a claridade, a inspiração.A interação harmônica dos elementos equilibra a Jornada da Nossa Alma, faz girar a Roda da Vida em harmonia.

O xamanismo cobre práticas de cura de ancestrais primitivos e indígenas, ao redor do mundo. Gosto de trabalhar num conceito de Xamanismo Universal, que une o xamanismo tradicional e o neo-xamanismo num só movimento para uma " Nova Consciência", fazendo conexões entre os conhecimentos esotéricos do Oriente e do Ocidente, sem cair na xenofobia das tradições e nem na banalização típica de muitos movimentos New Age. Se eu tivesse que sintetizar o que é xamanismo, diria que é a "Jornada da Consciência", é um legado da humanidade, além das fronteiras dos países, credos, raças, filosofias. Xamanismo Universal não significa uma classificação nova no xamanismo, o xamanismo é universal. A premissa básica é o reconhecimento que todos fazemos parte da Família Universal e tudo está interligado. O praticante compreende o “Espírito Essencial” que está dentro dele mesmo, na natureza e em todos os seres. Ele sabe quem ele é, e como se relaciona com o Universo. O reconhecimento do caminho da verdade vem da expansão da consciência e a compreensão que o verdadeiro poder está dentro de cada praticante, e provém do desenvolvimento de seus próprios dons. Inspirados na sabedoria dos povos ancestrais,temos o desafio de resgatar o conhecimento acumulado das práticas xamânicas das diversas tradições do planeta, para os dias atuais. Assim pretendemos contribuir, para a saúde, autoconhecimento e o bem-estar geral do nosso povo, assim como resgatar valores para uma vida mais harmônica e ecologicamente correta.

Os ancestrais xamânicos viviam em harmonia e equilíbrio com todos os seres sejam eles pedras, plantas, animais, pássaros, peixes, e até insetos.Para garantir sua sobrevivência, em ambiente hostil, os homens primitivos, interpretavam os sinais e as mudanças da natureza a seu redor. Viviam de acordo com os ciclos do Sol e da Lua, das mudanças das estações, das manifestações da natureza, vento, chuva, etc.

Os caminhos do xamanismo são espirituais. A prática xamânica compreende a capacidade de entrar e sair de estados de consciência, de realidades não-ordinárias Os estados alterados de consciência, não envolvem apenas o transe, e sim a capacidade de viajar na realidade incomum com o objetivo de encontrar-se com espíritos animais, plantas, mentores, obter insights, para curas, oráculos. Os estados alterados de consciência incluem vários graus; Stanley Kryppner chega a classificar 20 estados diferentes de consciência. Eliade fala do êxtase, Castañeda fala do nagual. Nirvana, samadhi, alfa, transe, satori, consciência cósmica, supraconsciência, etc. também são nomes para a mesma manifestação.São através desses estados que conseguimos nos conectar com nossos mitos, símbolos, nossa verdade interior. Conseguimos expandir a nossa percepção para os mistérios que estão guardados em nós mesmos. Aprendemos a sentir, ver e ouvir a energia.Nos religamos com o Sagrado e com a fonte criativa de tudo o que nos acontece. Através da consciência ordinária, não conseguimos alcançar níveis profundos do nosso ser. Existem diversas técnicas ou rituais para se chegar a estados mais profundos de consciência, dentre elas: tambores, danças, jejuns, plantas de poder (enteógenos), respirações, posturas corporais, e outros.

Através desses estados especiais nos alcança-se uma experiência divina, acessa-se uma fonte de Sabedoria Superior, podemos curar nosso corpo, nos conhecemos melhor através das visões, expandimos a nossa consciência. São através desses estados, que é possível conectar com mitos, símbolos, nossa verdade interior, expandir a nossa percepção para os mistérios que estão guardados em nós mesmos.

Aprendem-se as influências e forças da Terra, e como as energias naturais, afetam a vida. Tudo na natureza cresce e muda. É um ciclo. Os povos antigos consideravam a viagem circular da Terra ao redor do Sol uma roda, representando o eterno ciclo de nascimento e desabrochar, crescimento e florescimento, maturidade e frutificação, envelhecimento e decadência, morte e decomposição e, novamente renascimento, refletido na vida humana e na natureza. Os nativos reconhecem o círculo como o principal símbolo para o entendimento dos mistérios da vida. Observaram que ele estava impresso em toda a natureza. O homem olha o mundo através dos olhos, que é um círculo. A Terra, a Lua, o Sol, os planetas; são todos circulares. O nascer e o por do Sol, acompanham um movimento circular. As estações formam um círculo. Os pássaros constroem ninhos em círculos, animais marcam seus territórios em círculos. As cabanas, ocas, tipis são circulares.

Atualmente o xamanismo pode ser dividido em duas escolas. O xamanismo tradicional: que segue as tradições nativas. O neo-xamanismo: que adapta a essência, com práticas terapêuticas, numa realidade urbana etc. Eu não consigo me classificar em nenhuma das duas linhas, eu prefiro dizer que xamanismo para mim é Universal. Atualmente, muitos xamãs, inclusive no Peru, rezam para Cristo, e aceitam que Jesus foi um Xamã Iluminado. Podemos, numa abordagem mais abrangente dizer que a Doutrina Santo Daime é um xamanismo cristão, assim como a Native American Church nos EUA, a Umbanda , a União do Vegetal, a Barquinha, o Catimbó, os cerimoniais com cogumelos de Maria Sabina, e outros. Existem traços do xamanismo em todas as religiões: no Budismo Tibetano, no Judaísmo, no Tantrismo, no Cristianismo. Isso torna muito desafiante a tarefa de separar o que é e o que não é xamanismo, pois tudo está conectado!

O xamanismo resgata a relação sagrada do homem com o planeta. O resgate dos festivais sazonais (Solstícios e Equinócios), por exemplo, não marcam apenas a jornada do Sol, mas também os pontos críticos das estações, o ciclo agrícola, nossas emoções, hábitos. Essas "Forças Verdadeiras”, acessadas desde o princípio, na história espiritual da Terra, são resgatadas através dos séculos e podemos senti-las atuando em todos os momentos da cerimônia. Podemos sentir a ligação profunda que a natureza tem com a vida nos tornarmos parte de uma comunidade global, propomos o Vôo da Consciência em busca de novos horizontes, de novas conquistas, de um novo ser, de uma nova vida. O início de uma vida pautada na sabedoria encontrada nas folhas, nos movimentos dos ventos, no poder transformador do fogo, nos espíritos ancestrais, na jornada da alma, na missão. As religiões do mundo moderno não têm tempo para a ecologia espiritual, assim como a cultura e o modelo de pensamento consumista atuante.

As Grandes Religiões inspiram e apontam para uma vida eterna fora deste planeta e pouco se preocupam em honrar as realidades do espaço sagrado em que vivemos. Muitos vivem, atualmente, com uma sensação de separação, de isolamento, um sentimento de que deva existir um sentido maior na vida. Os rituais xamânicos podem trazer a consciência de somos apenas um "microcosmo", de que somos parte de "algo maior", de que somos filho da Terra, parte de uma Terra Viva.

Definição de xamanismo segundo vários autores :


Mircea Elíade

Desde o início do século, os etnólogos se habituaram a utilizar como sinônimos os termos xamã, medicine-man, feiticeiro e mago para designar certos indivíduos dotados de prestígio mágico-religioso encontrados em todas as sociedades primitivas. Por extensão, aplicou-se a mesma terminologia ao estudo da história religiosa dos povos civilizados e falou-se, por exemplo, em xamanismo indiano, iraniano, germânico, chinês e até babilônico para referir-se aos elementos "primitivos" encontrados nas respectivas religiões. Por várias vezes, tal confusão só pode prejudicar a compreensão do fenômeno xamânico em si. Se por "xamã" se entender qualquer mago, feiticeiro, medicine-man ou extático encontrado ao longo da história das religiões e da etnologia religiosa, chegar-se-á a uma noção ao mesmo tempo complexa e imprecisa, cuja utilidade é difícil de perceber, visto já dispormos dos termos "mago" e "feiticeiro" para exprimir noções tão díspares quanto aproximativas, como as de magia ou mística primitiva.

Consideramos útil limitar o uso de vocábulos "xamã" e "xamanismo", justamente para evitar equívocos e enxergar com maior clareza a própria história da magia e da feitiçaria. Pois - é preciso deixar claro - o xamã é, ele também, um mago e um medicine-man : a ele se atribui a competência de curar, como aos médicos, assim como o de operar milagres extraordinários, como ocorre com todos os magos, primitivos e modernos. Mas, além disso, ele é um psicopompo e pode ainda ser sacerdote, místico e poeta. Na massa indiferenciada e "confusionista" da vida mágico-religiosa das sociedades arcaicas considerada em seu conjunto, o xamanismo - tomado em seu sentido estrito e preciso - já apresenta uma estrutura própria e revela uma "história" que é da maior utilidade esclarecer.

Continuando com Mircea Elíade e outros autores:


O xamanismo stricto sensu é, por excelência, um fenômeno religioso siberiano e centro-asiático. A palavra chegou até nós atravérs do russo, do tungue saman. O xamã é sempre uma figura dominante, pois, onde a experiência extática é considerada a experiência religiosa por excelência, é o xamã, o grande mestre do êxtase. Uma primeira definição desse fenômeno complexo, e possivelmente a menos arriscada, será : xamanismo = técnica do êxtase.

Se tomarmos o cuidado de diferenciar o xamã de outros magos, o xamanismo aponta para uma "especialidade mágica " específica : o "domínio do fogo", o vôo mágico, o especialista em um transe quando a alma deixa o corpo para realizar ascenções celestes ou descensões infernais. Distinção do mesmo gênero se faz necessária para especificar a relação do xamã com os seres "espíritos". (espíritos da natureza, mortos, animais, etc.)

Teremos a oportunidade de encontrar o xamanismo no interior de um número considerável de religiões, pois ele é sempre uma técnica do êxtase à disposição de certa elite e constitui de algum modo a mística da religião em questão.

O xamã é o grande especialista da alma humana, pois conhece a sua forma e o seu destino. è sempre útil lembrar, quando se estuda o xamanismo, que este contempla certo número de elementos religiosos particulares e até "privados" e que, simultaneamente, está longe de esgotar a totalidade da vida religiosa do restante da comunidade. O xamã inicia sua nova vida, a verdadeira, com uma "separação", com uma crise espiritual que certamente não está desprovida de grandeza trágica nem de beleza.

O xamanismo é precisamente uma das técnicas arcaicas do êxtase, ao mesmo tempo mística, magia e religião, no sentido amplo do termo.


MICHAEL HARNER

O xamanismo é uma grande aventura mental e emocional, onde tanto o curandeiro como o paciente ficam envolvidos. Através de sua heróica viagem e de seus esforços, o xamã ajuda seus pacientes a transcenderem a noção normal e comum que tem a cerca da realidade, inclusive a noção de sí próprios como doentes.

Xamã é uma palavra da língua dos povos Tungus da Sibéria e foi adotada amplamente pelos antropólogos para se referirem a pessoas de uma grande variedade de culturas não ocidentais, que antes eram conhecidas por palavras tais como : bruxo, feiticeiro, curandeiro, mago, mágico, vidente.

O xamã é um homem ou uma mulher que entra em estado alterado de consciência - quando quer - para ter contato com uma realidade habitualmente oculta, usando-a para adquirir conhecimento e poder, e com isso ajudar, ajudar outras pessoas. O xamanismo costuma ter, pelo menos, um - quase sempre mais do que um - "espírito" a seu serviço pessoal.

O xamanismo representa o mais difundido e antigo sistema metodológico de tratamento da mente e do corpo que a humanidade conheceu. Dados arqueolóligos e etnológicos dizem que os métodos xamânicos tem pelo menos trinta mil anos. É bem possível que esses métodos sejam ainda mais antigos porque afinal, primatas que poderiam ser chamados de homens estiveram neste planeta por mais de dois ou tres milhões de anos.

Os xamãs dedicam-se especificamente à cura, mas também tratam e adivinhação, vendo o passado, o presente e o futuro para outros membros da comunidade. O xamã é um vidente. O xamã muda de uma realidade para outra, um magnífico atleta dos estados alterados de consciência voltado para feitos míticos.

No xamanismo, a manutenção do poder pessoal é fundamental para o bem estar. A prática do xamanismo exige autodisciplina e dedicação. O xamã é capz de mopver-se entre os diversos estados de consciência

O conhecimento xamânico verdadeiramente importante é o que se experimenta, não pode ser obtido a partir de um outro. O xamanismo é uma estratégia de aprendizado pessoal e de ação segundo esse aprendizado.

O xamâ é uma pessoa que trabalha em Estado Xamânico de Consciência ( estado extático, transe, estado transcendente - onde a pessoa percebe uma "realidade incomum".) e deve conhecer os métodos básicos para realizar esse trabalho.


CARLOS CASTAÑEDA

Dom Juan acreditava que os estados de realidade não comum eram a única forma de aprendizagem pragmática e o único meio de adquirir poder. Segundo D.Juan o objetivo do estudo é tornar um Homem de Conhecimento. Para isso sete conceitos:

1. Tornar-se um homem de conhecimento era questão de aprendizagem.

2. Um homem de conhecimento tem um propósito inflexível

3. Um homem de conhecimento tem clareza de espírito

4. Para ser um homem de conhecimento é preciso um trabalho exaustivo.

5. Um homem de conhecimento é um guerreiro

6. Um homem de conhecimento é um processo incessante

7. Um homem de conhecimento tem um aliado.

Esses sete conceitos são temas. Percorrem o ensinamento, determinando o carater do conhecimento. O Homem de conhecimento, porém, não era um guia de comportamento, e sim uma série de princípios que abrangiam todas as circunstâncias fora do comum pertinentes ao conhecimento que era ensinado.

Dom Juan me ensinou feitiçaria, mas não feitiçaria como entendemos a partir do contexto do nosso mundo cotidiano : usar poderes sobrenaturais sobre os outros, ou atrair espíritos através de encantamentos, rituais ou feitiços visando produzir efeitos sobrenaturais. Para Dom Juan, feitiçaria era o ato de incorporar alguns princípios especializados, teóricos e práticos, sobre a natureza e o papel que a percepção representa em moldar o universo ao nosso redor.

Em obras de antropologia, o xamanismo é descrito como um sistema de crenças de alguns povos nativos do norte da Ásia - predominando também entre certas tricos de índios da América do Norte - que afirma a existência de um mundo invisível de antigas forças espirituais, boas e más, ao nosso redor; forças espirituais que podem ser invocadas ou controladas através de atos dos praticantes, que são os intermediários entre os reinos natural e o sobrenatural.

Dom Juan era de fato um intermediário entre o mundo natural da vida cotidiana e um mundo invisível, que ele não chamava de sobrenatural, e sim de segunda atenção. Seu papel como professor era tornar acessível a mim essa configuração que os feiticeiros chamam de segunda atenção.

Dom Juan afirmava que nosso mundo, que acreditamos ser único e absoluto, é apenas um meio a um conjunto de mundos consecutivos, arrumados como as camadas de uma cebola. Dizia, que apesar de sermos energéticamente condicionados a perceber sómente nosso mundo, ainda temos a capacidade de entrar nessas " outras regiões" - que são tão reais, únicas, absolutas e envolventes como nosso mundo.

Acreditando que somente nosso condicionamento energético nos impede de entrar nessas "outras regiões", Dom Juan afirmava que os feiticeiros da antiguidade desenvolveram um conjunto de práticas destinadas a recondicionar nossas capacidades energéticas de perceber. Chamavam esse conjunto de práticas de " A Arte do Sonhar "


ALIX DE MONTAL

O xamã não é apenas um personagem dotado de poderes estabilizadores e transcendentes, de algumas longínquas sociedades primitivas.Ele já não é visto somente como um técnico do êxtase, ligado ao sobrenatural e às entidades demoníacas. Seu caminho interior participa da mesma febre mística atemporal que caracteriza a mais assídua das buscas religiosas. E, se na aparência, o caráter mágico do xamã continua a ser sua assinatura, já não se trata simplesmente de um fim a ser atingido, mas do resultado tangível de um formidável poder pessoal adquirido com o tempo por meio da vontade. Esse poder não advém de um domínio qualquer das pulsações íntimas, muito menos de um combate psicológico travado contra nós mesmos.

A dualidade xamânica é exercida entre o homem e a natureza - mais precisamente, entre o mundo e à idéia que o homem faz dele. E através do transe extático, manifestação última e espetacular de sua implicação no mundo, que o xamã rompe essa defasagem temporal e ilusória. Seu universo é um mundo simbólico, ao qual, paradoxalmente, ele atribui mais poder do que à própria realidade.

O xamanismo é um sacerdócio que requer não só verdadeira mística da faculdade mágica, mas também o envolvimento total de um ser responsável pela alma humana. Ele seria, assim, ao mesmo tempo uma religião sem dogma e uma profissão de utilidade pública, conciliando um conhecimento intuitivo e pessoal com a necessidade de agir.

Enquanto "técnica do êxtase", o xamanismo é um fenômeno religioso da Ásia Central e Setentrional (povos altaicos, buriatas, samoiedos, iacutes, tungus, voguls, etc) e das regiões árticas norte-européias (lapões). Encontram-se fenômenos xamânicos similares entre os esquimós, indios das Américas; do Norte, Central e Sul; na Oceania, na Austrália, no sudeste asiático; e enfim, na Índia, no Tibete e na China. Trata-se, aqui, de um conjunto de práticas evidentemente adaptadas e amalgamadas a cada cultura, a cada crença, mas que em toda parte apresenta o mesmo conteúdo mágico, religioso e simbólico.

A palavra xamã vem do tungue siberiano saman, aparentando com o sânscrito sramana e com o pali samana, que significa "homem inspirado pelos espíritos".

O xamanismo deve, pois, ser entendido como a sobrevivência clandestina de crenças ancestrais de que são testemunhas numerosos documentos pré-históricos do Paleolítico (e nada nos impede de pensar que essa tradição é ainda mais antiga).


JAMIE SAMS

O xamã é sempre uma pessoa que está sempre pronta a confrontar os seus medos mais profundos e todos os aspectos sombrios de sua vida física. O xamã é uma pessoa que desceu até os seus próprios mundos sombrios, confrontando-se com seus medos mais ocultos e também com os subterrâneos da maldade alheia. Isto lhe trouxe a capacidade de saber lidar tanto com as forças das trevas, quanto as forças da luz. Um verdadeiro xamã está apto a praticar exorcismos, a desfazer feitiçarias e a reverter os efeitos de atos de magia negra realizados contra alguém.

Há muitas pessoas hoje em dia que se denominam Xamãs sem nem sequer saber o que isto significa exatamente. Se estes pretensos xamãs não possuírem a capacidade de mergulhar em seus próprios subterrâneos sombrios, não estão ainda preparados para seguir o verdadeiro caminho do Xamã. Os verdadeiros xamãs não precisam ficar se gabando nem se exibindo para os outros. Eles trabalham em silêncio e em total humildade porque sabem que aos olhos do Grande Mistério o seu valor já está sendo reconhecido.

O Xamã natural, muitas vezes foi vítima de algum evento traumático entre um e sete anos de idade. estes acontecimentos traumáticos costumam romper a matriz embrionária do ego e destruir o sentido natural de limites que a criança possui. Quando o sentido natural individuação e a percepção do próprio Espaço Sagrado se enfraquecem, começa a se estabelecer uma comunicação involuntária entre aquele pequeno ser e vozes advindas de outros planos.

Um Xamã é aquele indivíduo que caminhou até os portais do seu inferno pessoal e teve coragem de entrar. Um verdadeiro Xamã é aquele que enfrentou e venceu os demônios autoconcebidos do medo, da insanidade, da solidão, da auto-importância e dos vícios ao passar pela gama de mortes do Xamã.

O xamanismo é também a capacidade de comungar com todos os espíritos que habitam em todos os níveis da Criação. Os melhores xamãs que encontramos hoje em dia são aqueles curadores curados, que já trilharam o caminho da morte e renascimento, destruindo as sombras que obscureciam sua clareza interior. Um xamã consegue reconhecer o lado obscuro de seu próprio ser e percebe a escuridão semelhante nos indivíduos.

A qualidade que melhor define um Xamã de verdade é o seu sentido de compaixão pelos caminhos que os outros ainda precisam trilhar, já que ele também atravessou o mundo subterrâneo das sombras e conhece diretamente a dor e o sofrimento envolvidos neste processo.


LEO RUTHERFORD

O xamanismo é a mais antiga forma que a humanidade teve para se conectar com a Criação. As origens do xamanismo datam de 40.000 a 50.000 anos, na Idade da Pedra.

Tudo o que nos temos envolvem culturas xamânicas - xamanismo não é importado, ele é nossas raízes enquanto estamos vivos.

Antropólogos tem estudado o xamanismo nas Américas; do Norte, Central, Sul. Na África, entre os povos aborígenes da Austrália, entre os Esquimós, na Indonésia, Malásia, Senegal, Patagonia, Sibéria, Bali, Velha Inglaterra e ao redor da Europa, no Tibet onde o xamanismo Bon segue a linha do Budismo Tibetano, em todos os lugares ao redor do mundo.

Eu mesmo tenho estudado os Incas e os Shipibos do Peru, Lakotas, Cherokees, Pueblos, Hopis e Ojibways da América do Norte, e praticantes dos Huichols do México. Em todos eles existem evidências de práticas xamânicas que vêm lá de trás do periodo Paleolítico. Nas cavernas antigas, desenhos e gravações similares, nós vimos que todos os indígenas dividem uma cosmologia similar, um entendimento similar de como o Universo trabalha.

Xamanismo não é um sistema de crenças. Ele é um caminho de conhecimento obtido através da experiência de muitas facetas da vida, através de rituais, cerimônias, preces e meditação, provas e testes.Conhecimento é algo que trabalha, ele nos desperta para provas, para um saber o que vem de dentro.

É muito comum em várias linhas, o uso da jornada xamânica com o tambor de batidas monótonas como seu método primário para viajar ao Espírito do Mundo e achar o que necessitar para curar.

Gosto do pensar no termo, como um grande guarda-chuvas, cobrindo práticas de cura de ancestrais nativos ao redor do mundo. É a definição de xamanismo que mais me satisfaz. É holístico inclusive e pode ser entendido através da descrição da jornada clássica onde o aprendiz de xamã é descrito no aprendizado da Roda Medicinal dos nativos americanos.

Um xamã é alguém que andou profundamente seu caminho de transformação e escolhe tornar-se curador, auxiliador, profeta, visionário, à serviço do povo. Esse é o mapa da jornada que devemos ter, se desejamos crescer profundamente dentro de nós mesmos.


PAUL DEVEREUX

Do fundo universal mágico-espiritual do animismo e do totemismo surgiu o fenômeno religioso catalisador do xamanismo. O xamã era um intermediário entre o mundo espiritual da natureza e a tribo. Através do que Eliade chamou "técnicas arcaicas de êxtase", o xamã entrava em transem, ou estados alterados de consciência, e viajava para mundos do espírito, em busca da informação requerida pela tribo, para reclamar as almas errantes ou arrebatadas dos membros da tribo doentes, para guiar a alama de um moribundo ao Outro Mundo, para conseguir a ajuda de espíritos auxiliares, para rechaçar os ataques dos xamãs de outras tribos ou perpetrar os seus. O xamã podia ver para trás no tempo e predizer acontecimentos vindouros.

Um importante elemento do xamanismo era a capacidade de viajar-se em espírito através do meio-ambientee observar acontecimentos distantes; tal era conseguido assumindo a forma de um animal ou ave, ou diretamente através daquilo a que chamaríamos de experiência fora-do-corpo. Este vôo mágico é de fato, o sentido essencial de êxtase (fora dos sentidos) Era um dos fundamentos do xamanismo e aí atingiu sua expressão mais sofisticada.

O xamã seria também um curandeiro, um feiticeiro e, em muitas aspectos um ator, sendo capaz de representar (e de facilitar) curas através de impressionantes demonstrações de perícia natural e do uso de prepresentações teatrais e ventriloquismo, com grande efeito psicológico no doente e nos membros da tribo que assistiam. No entanto, um feiticeiro, ou um curandeiro, não era necessáriamente um xamã.

O xamanismo foi o percussor de algumas das principais religiões das sociedades mais estruturadas, tais como o Budismo, o Taoísmo, o Zoroastrismo e o Tantrismo. Pode-se-ia dizer que estas religiões representam um xamanismo modificado e que, por sua vez, afetaram as tradições xamânicas continuadas ou marginalizadas, nas culturas que dominaram.

A ocorrência do xamanismo variou de sociedade para sociedade. Nos casos clásicos o xamã era o "homem sagrado", o foco religioso solitário da tribo. Noutras culturas, o xamanismo estava mais espalhado, meemo entre os membros vulgares da tribo; sessões cerimoniasis definidas ocorriam em meios em que toda a gente tivera a experiência mística de seus aderentes privilegiados.


MARIO MERCIER

A Magia natural, à semelhança daquela das crianças antes de sofrerem o condicionamento dos adultos, é uma forma de ver e de sentir o mundo. Esse mundo é, de resto, de uma multiplicidade incrível. Pode ser visto e vivido segundo o nível de consciência com que seja observado. Tudo nele pode parecer real ou ilusório. Ele é como um repouso em movimento. Quem quer que acorde o mundo de maneira fixa é morto. Viver é transformar-se incessantemente, a exemplo do corpo, esse pentáculo vibratório.

Haveria muito ainda a dizer acerca do modo de abordar a Natureza e de entrar em contato com o psiquismo dos elementos. Para conhecer nossa finalidade, é preciso inicialmente descobrir nossa origem. essa origem nós trazemos na memória, da mesma forma que a natureza tem seus sinais, pois ela é o nosso berço. Se entrarmos em relação mágica com sua alma, ela nos fará redescobrir muitas coisas em nós, pois falará através de nós.

Fazer amor em espírito com o mar, as montanhas, a terra, as pedras, as árvores, as flores, o vento, o fogo; tomar e estreitar o Universo, fazer-se fecundar por ele, abrasar-se: esse é o ato de fé que deve realizar aquele que se entrega à magia natural, essa magia que toda a criancinha também conhece.

Observar, ver magicamente, isto é, ver o que os outros não procuram ver, é despertar as energias da Natureza. Então, nesse momento, elas se põem a falar e a nos dizer o que devemos fazer para penetrá-las e ser por elas penetrados.


ROGER N. WALSH

O termo xamã, vem da palavra saman do povo tungu, natural da Sibéria, e dignifica "alguém que está em êxtase, comovido, elevado. pode ter suas raízes em um antigo vocábulo hindu que queria dizer : aquecer-se ou praticar austeridades, ou em outro verbo tungu, que significa conhecer. Seja qual for sua origem, o termo xamã tem sido amplamente adotado pelos antropólogos para fazer referências a grupos específicos de curadores em variadas culturas que, as vezes, são chamados curandeiros, bruxos, feiticeiros, magos, mágicos, etc. No entanto, esses termos são por demais vagos para definir de forma adequada o grupo específico de curadores que se ajusta à definição de xamã.

Enquanto os primeiros exploradores se impressionavam muito com a interação do xamã com os espíritos, os de geração mais recente ficaram mais impressionados ainda com o controle que o xamã tem de seus próprios estados de consciência, nos quais ocorrem tais interações. Parece que a primeira tradição a usar tais estados foi o xamanismo, e as definições contemporâneas dessa tradição, concentram-se, portanto, nesse aspecto. Ele entrar num Estado Alterado de Consciência (EAC) controlado em benefício da comunidade.

Esses especialistas incluem, por exemplo, médiuns em estado de transe, que depois alegam ter mensagens dos espíritos a transmitir. Uma definição tão ampla de xamanismo pode incluir ainda qualquer praticante que entre em estados alterados de consciência controlada, de modo independente de quais possam ser esses estados alterados em particular.

A definição de xamanismo = técnica de êxtase (Eliade) é em especial pertinente para o xamanismo. Nesse contexto implica não tanto em um arrebatamento encantado, mas ser levado ou afastado do próprio ser ou estado normal, e entrar num estado de sensações intensificadas e agudizadas.

O traço distintivo do êxtase xamânico é a vivência do " vôo da alma " , ou da viagem, ou da experiência fora do corpo. Quer dizer que, em seu estado extático, o xamã vivencia a si mesmo, sua alma ou espírito, flutuando pelo espaço e viajando para outros mundos ou para partes distantes desse mundo.

Existem três traços distintivos do xamanismo que cabem em qualquer definição. O primeiro é que o xamã pode entrar voluntariamente em estados alterados de consciência. O segundo é que nesses estados ele pode se sentir viajando para outros mundos. O terceiro é que o xamã usa essas viagens como meio de adquirir conhecimento ou poder e de ajudar as pessoas de sua comunidade.

O xamanismo pode ser definido como uma família de tradições cujos praticantes concentram-se em entrar voluntariamente em estados alterados de consciência, nos quais vivenciam a si ou ao seu espírito viajando par outras dimensões, sob comando de sua vontade, interagindo com outras entidades a fim de servir sua comunidade.


PATRICK DROUOT

Na metade dos anos 60, o xamanismo interessava fundamentalmente aos especialistas da psicologia transpessoal - uma disciplina de vanguarda que procurava estudar os estados de consciência mística veiculados pelo conjunto das tradições da humanidade. Para os antropólogos, etnólogos e historiadores das religiões, o xamanismo era uma forma primitiva de religião, suplantada e superada pelas culturas hierarquizadas modernas.

Há cerca de 20 anos, os livros de M.Harner e Castañeda (especialmente este) abriram a consciência de indivíduos em busca de desenvolvimento pessoal e espiritual para as idéias, crenças, inspirações e experiências diretas dos xamãs.

Desejosas de reatar com a tradição xamânica e ajudá-la a voltar a tornar-se uma autêntica via de transformação, cada vez mais pessoas exploram seus estados alterados de consciência para alcançar o conhecimento e a sabedoria do mundo oculto atrás do mundo. Desde os fins dos anos 80, esse "neoxamanismo" ancora-se na sociedade ocidental, especialmente na América do Norte, onde muitos buscam suas raízes tradicionais. O recurso aos cantos sagrados acompanhados de instrumentos de percussão, chocalhos e tambores, ou aos "animais totens" descobertos por meio de viagens em níveis de consciência diferente, voltaram a ser práticas bastante correntes.

O xamanismo, tanto em sua forma mais primitiva quanto na mais moderna, recupera o aspecto democrático da vida espiritual: as forças sutis da natureza manifestam-se em experiências espirituais. Cada dimensão da realidade está disponível àquele que realiza op esforço de aprender a prática da viagem e os diferentes meios de consegui-lo. Assim a via xamânica permite o indivíduo a viver uma experiência direta.

O papel principal do xamã é servir de mediador, de intercessor entre o sagrado e o profano, entre o nosso plano físico e além. O xamanismo é uma concentração de conceitos e técnicas psíquicas que, ao longo das idades foram desenvolvidos por um grupo particular, por povos que se espalharam em cada continente. Numa época em que o ser humano se sentia inevitavelmente inferior ao meio ambiente, ele tentou entrar em harmonia com aquele, e escutar as mensagens dos povos;mineral, animal e vegetal, com isso enriquecendo sua força psíquica. Todavia essa aptidão acabou por perder-se ou, mais exatamente, por refugiar-se entre indivíduos particulares: os xamãs.

Os xamãs representam a categoria dos visionários que recorrem aos transes e as visões. Visitam em espírito lugares longínquos para atrair um espírito guardião. É a viagem da alma, característica do verdadeiro xamanismo, que permitirá ao ser investido identificar a causa de uma doença e o remédio apropriado.


SANDRA INGERMAN

Ao redor do mundo e através de muitas culturas, uma pessoa que lida com o aspecto espiritual da doença é um xamã. Cabe a ele diagnosticar e tratar as doenças, lidar com informações divinas, se comunicar e interagir com o mundo-espírito e, ocasionalmente, agir como condutor psíquico, ou seja, uma pessoa que ajuda as almas a cruzar os confins para o outro mundo.

A palavra Shaman, originária na tribo tungus da Sibéria, aplica-se tanto a homens quanto mulheres. Através de jornadas, um xamã vai buscar auxílio e informação para ajudar um paciente, família, amigos ou a comunidade.

Geralmente, um xamã usa instrumentos de percussão ou, com menos frequência, psicoativos para entrar num estado alterado.

Um xamã distingue-se de outros curadores pelo uso da jornada. Provas de jornadas xamânicas são encontradas na Sibéria, Lapônia, partes da Ásia, África, Austrália e entre nativos das Américas do Norte e Sul.

Muitos de nós aventuram-se num caminho espiritual para experimentar e perceber mais a vida do que somos capazes basedos somente na lógica. Para realizar isto, usamos nossas funções do hemisfério cerebral direito. Devemos nos abrir para nossa intuição. Devemos usar nossos sentidos para perceber a realidade de uma maneira diferente. Devemos ver, ouvir, sentir e cheirar de um lugar diferente dentro de nós mesmos. E quando aprendemos a expandir todos os nossos sentidos, podemos então adentrar o mundo do xamã


TERENCE McKENNA

O xamanismo deve representar em qualquer renascimento autêntico das form,as arcaicas vitais de ser, viver e compreender. O xamã consegue entrar num mundo que está oculto para quem vive a realidade comum. Nessa outra dimensão se escondem tanto poderes úteis quanto malévolos. Suas regras não são as regras de nosso mundo; parecem mais as regras que atuam nos mitos e nos sonhos.

Os curandeiros xamânicos insistem na existência de um Outro inteligente em alguma dimensão próxima. Aexistência de uma ecologia de almas ou de uma inteligência não encarnada não é uma coisa com a qual a ciência possa se atracar e em seguida emergir com suas premissas intactas. Particularmente se esse Outro tem feito patê da cultura terrestre há muito tempo, presente porém invisível, compartilhando um segredo global.

Mesmo que tenha variação entre culturas e indivíduos, a estrutura geral da iniciação xamânica é clara : o neófito passa por uma morte e uma ressurreição simbólica, o que é entendido como uma transformação radical em uma condição sobre-humana, é um senhor do êxtase, pode viajar à vontade no reino do espírito e, mais importante, pode curar e adivinhar. Resumindo o xamã é transformado de um estado profano em um estado sagrado. Ele não somente efetuou sua cura pessoal através dessa transmutação mística; agora ele está investido com o poder do sagrado, e, portanto pode curar também os outros. É importantíssimo lembrar que o xamã é mais do que simplesmente um homem doente ou um louco; ele é um doente que se curou, que está curado, e que deve atuar como xamã para permanecer curado.

Silenciosamente e fora da história, o xamanismo prosseguiu o seu diálogo com o mundo invisível. O legado do xamanismo pode atuar como uma força estabilizadora destinada a redirecionar nossa consciência para o destino coletivo da biosfera. A fé xamânica é de que a humanidade tem aliados. Existem forças favoráveis à nossa luta para nascermos como espécie inteligente. Mas são forças silenciosas e tímidas; devem ser procuradas não na chegada de frotas alienígenas no céu da terra , e sim aqui perto, na solidão dos locais ermos, juntos às cachoeiras; e sim; nas pastagens agora tão raras sob nossos pés.


FRED ALAN WOLF

O termo xamã, se aplica à pessoas com capacidades não ordinárias. Todos os xamãs tem a habilidade de usar o som,o canto e a vibração de modo aparentemente mágico para alterar a consciência. Todos os xamãs passam por um período de iniciação antes de converterem-se xamãs de pleno direito. Normalmente a tradição xamânica passa de um ancião para o iniciado. Todos os xamãs tem mestres, que por sua vez, tinham sido xamãs.

HARMONIA - AMOR - PAZ E LUZ - LÉO ARTÉSE

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Veja também:

Xamanismo - Wikipédia

http://pt.wikipedia.org/wiki/Xamanismo

 

 
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