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Texto da Missa da Terra sem Males Abertura Todos (Canto) Em nome do Pai de todos os Povos, Maíra de tudo, excelso Tupã. Em nome do Filho, que a todos os homens nos faz ser irmãos. No sangue mesclado com todos os sangues. Em nome da Aliança da Libertação. Em nome da Luz de toda Cultura. Em nome do Amor que está em todo amor. Em nome da Terra-sem-males, perdida no lucro, ganhada na dor, em nome da Morte vencida, em nome da Vida, cantamos, Senhor! Memória Penitencial Todos (Canto) Herdeiros de um Império de extermínio, filhos da secular dominação, queremos reparar nosso pecado, viemos celebrar a nova opção: Ressurreição. Na Ceia da Morte e da Vida, a antiga memória perdida; a morte dos Povos do passado na Festa do Povo esperado: Ressurreição; a História da América inteira, nesta Memória de Libertação; na Páscoa do Ressuscitado, a Páscoa Ameríndia ainda sem ressurreição... ressurreição, sem ressurreição...
Solo indígena, ou recitado (R) ou cantado (C). Todos (Canto) Eu sou América, sou o Povo da Terra, da Terra-sem-males, o Povo dos Andes, o Povo das Selvas, o Povo dos Pampas, o Povo do Mar... (R) Do Colorado, de Tenochtitlan, do Machu-Pichu, da Patagônia, do Amazonas, dos Sete Povos do Rio Grande... (Vozes individuais) Eu sou Apache. Eu sou Azteca. Eu sou Aymara. Eu sou Araucano. Eu sou Maia. Eu sou Inca. Eu sou Tupi. Eu sou Tucano. Eu sou Yanomani. Eu sou Aymore. Eu sou Irantxe. Eu sou Karaja. Eu sou Terena. Eu sou Xavante. Eu sou Kaingang. Solo (R) Eu, Guarani. E é com canto Guarani que todo o resto do Continente, todos os povos do meu Povo, cantam agora seu lamento. (C) Irmãos, vindos de fora, se quereis ser irmãos, escutai o meu canto! Todos Queremos escutar, de coração aberto, com a mão do remorso sobre a ara do peito. Queremos reparar a História desta Terra, massacre secular. Solo (R) Eu tinha uma cultura de milênios, antiga como o sol, como os Montes e os Rios de gran de Lacta-Mama. Eu plantava os filhos e as palavras. Eu plantava o milho e a mandioca. Eu cantava com a língua das flautas. Eu dançava, vestido de luar, enfeitado de passaros e palmas. Eu era a Cultura em harmonia com a Mãe Natureza. Todos E nós a destruímos, cheios de prepotência, negando a identidade dos Povos diferentes, todos Família Humana. Solo (R) Eu era a Paz comigo e com a Terra... Todos E nós te violamos ao fio das espadas, no fogo do arcabuz queimamos teu sossego. Solo (R) Eu conhecia o ouro, o diamante, a prata, a nobre madeira das matas, mas eram para mim os enfeites sagrados do corpo da Terra Mãe. Eu respeitava a Natureza como se respeita a própria esposa. Todos Caravelas do Lucro, viemos navegando, para vender a Terra para explorar lucrando. Solo (R) Eu vivia na pura nudez, brincando, plantando, amando, gerando, nascendo, crescendo, na pura nudez da Vida. Todos E nós te revestimos com roupas de malícia. Violamos tuas filhas. Te demos por Moral a nossa Hipocrisia. Solo (R) Eu tinha meus pecados, eu fiz as minhas guerras... Mas eu não conhecia a Lei feita Mentira, o Lucro feito Deus. Todos E nos te revestimos com roupas de malícia. Solo (R) Eu era a Liberdade -não uma estatua apenas-, Moara em came humana, a Liberdade viva. Eu era a Dignidade, sem medo e sem orgulho, a Dignidade Humana. Todos E nós te escravizamos. E nós te sepultamos na escurião das minas. Dobramos o teu corpo sob os canaviais. E te jogamos contra as árvores amadas, para cortar madeira, cortando o teu espírito, o cerne do teu Povo. Solo (R) Meu tempo era o Dia e a Noite, o Sol e a Lua, as Chuvas e os Ventos gerais, meu tempo era o Tempo, sem horas. Todos E nós te amarramos ao tempo do relogio, no nosso pouco tempo de pressas e interesses, ao tempo-concorrência. Solo (C) Eu adorava a Deus, Maíra em toda coisa, Tupã de todo gesto, Razão de toda hora. Eu conhecia a Ciência do Bem e do Mal primeiros. A Vida era meu culto, a Dança era meu culto, a Terra era meu culto, a Morte era meu culto, eu era um Culto vivo! Todos E nós te missionamos, infiéis ao Evangelho, cravando em tua vida a espada de uma Cruz. Sinos de Boa-nova, num dobre de finados! Infiéis ao Evangelho, do Verbo Encarnado, te demos por mensagem, cultura forasteira. Partimos em metades a paz de tua vida, adoradora sempre. Solo (R) O amor do Pai de todos me batizou com água da Vida e da Consciência e semeou em mim a Graça do seu Verbo, Semente universal de Salvação. Todos Quando nós te ferramos com um Batismo imposto, marca de humano gado, blasfêmia do Batismo, violação da Graca e negação do Cristo. Solo (R ) Eu era um Povo de milhões de vivos, de milhões e milhões de Gente Humana, milhões de imagens vivas do Deus Vivo. Todos E nós te dizimamos, portadores da Morte, missionários do Nada. Solo (R) Eu vos dei a beleza do Mar e suas praias, eu vos dei minha Terra e seus segredos, os pássaros, os peixes, os animais amigos, servidores. O milho da espiga apertada e repartida, o bulbo generoso da mandioca o pão de cada dia, o guaraná cheiroso da floresta, o caldo assossegante do chimarrão do Sul. O remédio da Terra enfermeira. A canoa, voadora nas águas. O Pau-brasil de fogo, nome do coração do vosso País... Todos E nós te depredamos, desnudando as florestas, calcinando teus campos, semeando veneno nos rios e no ar. A Terra generosa separando, por cercas, os homens contra os homens: para engordar o gado da fome nacional para plantar a soja da exportacão escrava. Solo (C) Eu era a Terra livre, eu era a Agua limpa, eu era o Vento puro, fecundos de abundância, repletos de cantigas. Todos E nós te dividimos em regras e em fronteiras. A golpes de ganância retalhamos a Terra. Invadimos as roças, invadimos as tabas, invadimos o Homem. Solo (R) Eu fazia um caminho a cada vez que passava. Era a Terra o caminho. O caminho era o Homem. Todos Nós abrimos estradas, estradas de mentira, estradas de miséria, estradas sem saída. E fizemos do Lucro o caminho fechado para o Povo da Terra. Solo (R) Eu era a Terra inteira, eu era o Homem Livre. Todos E nós te reduzimos em Vitrina e Reserva, em Parque zoológico, em Arquivo-poeira. Solo (R) Eu era a Saúde dos olhos, penetrantes como flechas, dos ouvidos atentos, dos músculos harmónicos, da alma em sossego. Todos E nós te mergulhamos nos vírus, nos bacilos, nas pestes importadas. Teu Povo reduzimos a um Povo de doentes, a um Povo de defuntos. Solo (R) Eu vivia embriagado na Alegria. A aldeia era uma roda de amizade. Meus Chefes comandavam, servidores do Povo, com a sabedoria e o respeito de quem se reconhece igual ao outro. Todos E nós te embriagamos de cachaça e desprezo. Fizemos-te objeto do Turismo impudente. Tornamos os teus Povos uma placa de rua, e o teu Saber antigo, Tutela de menores. Pusemos as algemas dos nossos Estatutos na tua Liberdade. Jogamos tua Língua nas covas do silêncio, e os teus Sobreviventes à beira das estradas, à beira dos viventes mão de obra barata nas fazendas e minas, nos bordéis e nas fábricas; mendigos dos suburbios das cidades sem alma; restos do Continente da grande Lacta-Mama (A música se torna diferente em tom de desafio e esperança) Solo (C) Eu era toda América, eu sou ainda América, eu sou a nova América! Todos E nós somos agora, ainda e para sempre, a herança do teu Sangue, os filhos dos teus Mortos, a aliança em tua Causa. Memória rediviva, na Aliança desta Páscoa. Aleluia Todos (C) Aleluia! aleluia! aleluia! Todos os Povos da Terra, da Terra-sem-males, louvem ao Pai! O Evangelho é a Palavra de todas as Culturas. Palavra de Deus na Língua dos Homens! O Evangelho é a chegada de todos os caminhos. Presença de Deus na marcha dos Homens! O Evangelho é o destino de toda a História. História de Deus na História dos Homens! Aleluia... etc... Ofertório Todos (R) Erguemos em nossas mãos a memória dos séculos, reunimos na carne do pão a história do Tempo de Libertação. Aqui vos entregamos, a vida banhada de chuva, o milho plantado na terra, o amor em pão repartido. Aqui vos entregamos a esperança da Terra-sem-males, a caça-alimento na boca de todos, 0 culto da dança de todas as noites. Aqui vos entregamos a paz da abundância, a liberdade dos Homens, a vida de Homens iguais. Todos Na herança do milho, na massa do pão, a Páscoa do Cristo e a nossa união. Na sorte do vinho, na luta e na morte, a Páscoa do Cristo e a Libertação. Todos Erguemos em nossas mãos a memória dos séculos, recolhemos no sangue do vinho a história de um tempo de escravidão. Em nossas mãos vos entregamos a cinza das aldeias saqueadas, o sangue das cidades destruídas, a vencida legião dos oprimidos. Em nossas mãos vos entregamos os seios exaustos das minas, a água profanada dos rigs, as madeiras-em-cruz deste martírio. Em nossas mãos vos entregamos as veias abertas de América, a pedra calada dos templos, o pranto da memória índia. Todos (C) Na herança do milho... etc. Rito da Paz Todos (Canto) Shalom, Sauidi, a Paz! A Paz de Deus, na paz dos Homens. O amor do Pai entre os irmaos. Todos os Povos num só Povo. Porque o Senhor é nossa Paz. Shalom, a paz antiga. Sauidi, a paz perdida. Em Cristo, a nova Paz! Shalom, Sauidi, a Paz! Comunhão Todos (C) Celebrando a Páscoa do Senhor cantamos a Vitória de toda a Humanidade. Tribos de toda a Terra, Povos de toda idade. Na carne do Senhor revive toda carne. Por isso comungamos toda luta. Por isso comungamos todo sangue. Por isso comungamos toda busca de uma Terra-sem-males. Libertos do primeiro Cativeiro, cantamos a Passagem. Cantando atravessamos o novo Mar Vermelho do teu Sangue. Cantando comungamos o Pão da Liberdade. Cantando caminhamos à procura de uma Terra-sem-males. Celebrando a Páscoa do Senhor... etc. Compromisso Final Voz masculina (Voz masculina e voz feminina: recitado. Todos cantado) Alimentados da Páscoa do Senhor e na Esperança da Terra Prometida, rejeitamos todas as cadeias e, com os pés descalços sobre esta Terra nossa, retomamos a marcha dos mortos redivivos. Voz feminina Com as claras estrelas dos Povos exterminados, iluminamos a rota do ultimo Exodo, buscando a Terra-sem-males. Voz masculina Como fogueiras ardendo no coração da noite, a memória dos Povos perdidos conduz o passo dos seus filhos. Todos Memória / Remorso / Compromisso! Voz feminina Pelos Templos sem defesa saqueados, por todas as Cidades destruídas, pelos 90 milhões de índios massacrados. Todos Memória / Remorso / Compromisso! Voz masculina Pelas ruínas do Império do Sol, pelos Palacios Maias abolidos, por todo o Povo Azteca escravizado, pela desolação dos Sete Povos... Todos Memória / Remorso / Compromisso! Voz feminina Pelo silêncio das flautas e tambores na noite, pela morte da alma destes Povos, pela palavra "resignação" dita aos escravos... Todos Memória / Remorso / Compromisso! Voz masculina Pelo arcabuz dos bandeirantes e bugreiros, pelos meninos escravizados, pelas meninas defloradas, pelas caravanas de moribundos rumo a São Paulo... Todos Memória / Remorso / Compromisso! Voz feminina Pela peste que trouxemos no sangue depurado, pelas lanças quebradas na humilhacão, pelas cabeças cortadas dos Aymoré... Todos Memória / Remorso / Compromisso! Voz masculina Pelas cercas farpadas dos novos bandeirantes, pela cachaça integradora, na boca dos guerreiros, pelo açúcar servido com cianureto no paralelo onze, pela prepotência da Tutela e o sarcasmo da Emancipação... Todos Memória / Remorso / Compromisso! Voz feminina Pela cruz inscrita na espada dos saqueadores, pela devastadora Civilização que se pretende cristã, pelas catedrais assentadas no coração dos templos índios pelo Evangelho da Liberdade, feito decreto de cativeiro. Todos Memória / Remorso / Compromisso! Voz feminina (Música de suplica confiada) Todos (Cantado) Morena de Guadalupe, Maria do Tepeyac: Congrega todos os índios na estrela do teu olhar; convoca os Povos da América que querem ressuscitar. Vozes individuais (recitado) Montezuma! Atau Walpa! Tupac Amaru! Sepé Tiaraju! Toríbio de Mogrovejo! Rosa de Lima! Bartolomé de las Casas! José de Anchieta! Roque! João! Afonso! Rodolfo! Simão Bororo! João Bosco! Voz masculina E todos os Patriarcas, Profetas e Mártires da Causa Indígena! Todos (Recitado) Prosseguiremos vossa caminhada! Todos (Canto Final) Unidos na Memória da Páscoa do Senhor voltamos para a História com um dever major. Unidos na memória da Antiga Escravidão juramos a Vitória na nova servidão. América Amerindia, ainda na Paixão: um dia tua Morte terá Ressurreição! A Páscoa que comemos nos nutre de porvir. Seremos nos teus Povos o Povo que ha de vir. Os Pobres desta Terra queremos inventar essa Terra-sem-males que vem cada manhã. Uirás sempre a procura da Terra que vira... Maíra, nas origens. No fim, Marana-tha!
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