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| Tainha, uma brincadeira pra levar a sério com bom humor |
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| Notícias - Arte e cultura | |||
| Escrito por LuaEstrela | |||
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Tainha, uma brincadeira pra levar a sério com bom humor Reportagem e Texto: * Déa S Melo
As águas que representavam e representam o território da lida diária para garantir o sustento dessas famílias, também é fonte de afirmação da identidade, de preservação do ambiente, de cultivo da arte, de valores humanos universais e de fertilidade criativa, manifesta pelos cantos, ritmos, danças e brincadeiras, que esses povos produzem espontaneamente com tanta beleza e sabedoria. Trata-se de uma sofisticada ferramenta de comunicação absolutamente transformadora. A BRINCADEIRA
Tocados pela comovente vontade de revelar essa tradição e seus valores às novas gerações, Ana do Porto e Come Barro junto com a Irmandade Maria Pretinha, formado por aproximadamente quarenta integrantes entre crianças, jovens, homens, mulheres, idosos, marujos, marujas e músicos tradicionais de Quatipuru. Juntos, conseguem apoio da Prefeitura Municipal local, da Secretaria de Cultura do Pará, da Fundação Cultural Tancredo Neves, da ONG Mana-Maní e mobilizam um grande público para assistir o esperado “desencantamento” da famosa Tainha, com direito a uma enorme fogueira, como se fazia antigamente; e a participação de três grupos de cultura que vieram especialmente da Vila de Boa Vista, para preparar o clima até a chegada da Tainha na Quadra do Merico, onde aconteceu a brincadeira. Conta a história que em zona proibida pela Marinha para a pesca da Tainha, pescadores violam a lei, mas se dão mal. Além de não conseguirem fisgar nenhuma delas, ainda são presos e responsabilizados pelo sumiço do peixe daquelas águas. Para os soldados, a Tainha está encantada e orientam os Pescadores a falar com o Capataz, que talvez tenha uma solução. O Capataz dá a dica de uma velha que benze, reza e “mexe com essas coisas”... Os Pescadores encontram Dona Fogência e prometem uma grande quantia em dinheiro se ela conseguir trazer a Tainha de volta. A velha vai na morada da Tainha, só que pela idade avançada, não dá conta do recado. Como sábia que é, tem o poder de ir ao encontro da Fada, para pedir ajuda. A Fada por sua vez, canta e manipula sua varinha de condão...
Vou indo nessa estrada Até a beira do mar Vou fazendo minhas preces Pra quem nunca veio cá
Minha varinha querida Te lançarei sobre o mar Faça com que a sereia Venha comigo falar
Do grande mar da verdade Sei que tu ficas brincando Parto e levo saudade
A COMUNIC-AÇÃO Onde estamos nós, herdeiros e herdeiras dessa tradição? Onde habita e se expressa em nós o Pescador, a Velha Sábia, a Fada, a Sereia e a cobiçada Tainha na criação de nossas realidades individuais e coletivas? Uma das mensagens que podemos decodificar a partir deste instrumento de Comunicação, diz respeito a uma dinâmica de relação com os ambientes externo e interno de cada um. As vezes tudo o que pescador ou “buscador” interior - que impulsiona à ação, à luta pela sobrevivência, à satisfação das necessidades materiais que é uma dinâmica do masculino precisa, para se realizar plenamente é de uma “Tainha”. Esse ser que habita as águas, que é “morada” dos sentimentos, da receptividade e da arte, reconhecida por várias tradições e ciências como a dimensão do feminino. Mas, como o pescador não está consciente disso, de um modo geral não sabe como chegar na Tainha. Pesca em zona proibida, se emaranha na própria rede e tem que enfrentar águas nunca dantes navegadas, se quiser “desencantar”essa parte que “sumiu, ”, pois simplesmente a perdeu de vista. Homens e mulheres, sequer desconfiam de sua “Velha Sábia” interior, aquela que já viveu muito... que conhece os segredos das rezas, das bençãos, das dicas aprendidas com aquelas que vieram antes - mães, avós e toda sua ancestralidade. Também esquecem que dispõem de uma Fada, a bela moça que com o toque de sua varinha de condão, traz esperança, torna tudo possível e mais bonito, ainda que num mundo de competição e violência, visibilisado pelos meios de comunicação de massa. Nessa jornada de enfrentamento do desconhecido é necessário ir mais fundo. Há que se ter persistência, fé e arte pra acessar os poderes da mulher, a madura Sereia. É pelo seu canto, o sedutor e decisivo chamado que a “Tainha” desencanta das profundezas das águas do Ser. Todas elas – velha, fada e sereia, faces do feminino; e portanto canais de comunicação e expressão com a vida que estão a espera de uma chance pra se manifestar. E os homens também sabem disso, afinal nessa metáfora é o Capataz quem dá o endereço da Velha Sábia aos Pescadores, que nela confiam e de boa vontade percorrem toda uma jornada de unidade entre masculino e feminino até trazer a Tainha de volta a Vida. Na cobrança pelo serviço feito, depois de toda uma jornada de consciência, que inclui naturalmente a luta pela sobrevivência, o Pescador descobre enfim, que mais do que dinheiro, tudo o que a velha sábia precisa pra se sentir plenamente recompensada é de uma simples Dança, ou seja o alimento que nutre também as necessidades da alma. Assim, a sustentabilidade ambiental do planeta, passa necessariamente pela preservação do patrimônio da cultura imaterial de um povo, que por sua vez se sustenta no comprometimento de cada individuo em desencantar sua própria Tainha. E a Sereia se despede lembrando e ensinando:
Adeus até para o ano Se ainda quiserem me ver Vão lá fora no oceano “Para o bem de todos e felicidade geral da nação” que em côro canta “Era um dia de rosa quando a maré repontou Ficamos alegres e contentes quando a Tainha chegou...”
*************************************** *Comunicadora Social, criadora de metodologia Comunic-Ação Criativa e Coordenadora de Comunicação da ONG Mana-Maní Círculo Aberto de Comunicação, Educação e Cultura. - SAIBA MAIS SOBRE A IRMANDADE MARIA PRETINHA: www.maria-pretinha.blogspot.com
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