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Se queremos a paz, ajudemos a construí-la Imprimir E-mail
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Notícias - Ponto de vista
Escrito por Alysson   

Se queremos a paz, ajudemos a construí-la

Madri, maio/2008 – Queremos verdadeiramente a paz que desejamos? Salam, shalom... e, em seguida, a intransigência, o enfrentamento, a confrontação. “Se quer a paz, prepare a guerra”, é o adágio perverso que, para benefício dos produtores de armamentos, utiliza-se desde a origem dos tempos por parte do poder, que dispunham, como algo inquestionável, às vidas de seus vassalos.

E assim até estes turbulentos, mas esperançosos alvores de século e de milênio, porque se ganhou em consciência global e conhecimento profundo da realidade; porque a moderna tecnologia da comunicação permite a participação não presencial, o que fortalecerá a autenticidade democrática; e porque, muito relevante, a mulher ampliará em poucos anos os magros 5% que tem hoje em dia como porcentagem de influência na tomada de decisões.

E a conclusão, muito favorável destes novos fatos e oportunidades, será que a Humanidade tomará em suas mãos as rédeas de seu destino e finalmente tornará possível o cumprimento do clarividente início da Carta das Nações Unidas: “Nós, os povos...”. Sim, serão “os povos”, a sociedade civil, que, constituindo progressivamente democracias genuínas, nas quais os eleitores contem além de serem contados nas eleições, nas quais sejam considerados todos os dias e não apenas os momentos da apuração.

A grande mudança será a transição de súditos para cidadãos, de uma cultura de imposição e violência para uma de conversação e conciliação, da força para a palavra. De preparar a guerra para preparar a paz. “Se quer a paz, ajude a construí-la com seu comportamento cotidiano”, sendo ator e não espectador impassível e pusilânime. O tempo do silêncio acabou, tanto em nível pessoal quanto, sobretudo, institucional. Gosto de repetir que o silêncio dos silenciosos é mais ignominioso do que o dos silenciados.

Atrever-se a saber... e saber atrever-se para enfrentar o todo poderoso e onipresente poder midiático que nos enche de inquietação e nos uniformiza, ao ponto de aceitar o inaceitável (gastar em armas todos os dias US$ 3 bilhões, sem contar o disparate dos escudos antimísseis, enquanto morrem de fome 60 mil pessoas diariamente). Distraídos, não vemos os “invisíveis”, o ordinário. Vemos apenas os visíveis, as informações que descrevem o “extra-ordinário”, o insólito, o atípico.

É necessário nos conduzirmos educadamente, isto é, em virtude de nossa própria reflexão, “dirigindo com sentido a própria vida”. É necessário ir ponto tantas coisas espalhadas em seus lugares: os valores democráticos que segundo a Constituição da Unescode 1945 são a justiça, a liberdade, a igualdade e a solidariedade – em lugar das leis do mercado que, como era previsível, ampliaram as brechas e desgarros sociais em lugar de reduzi-los; uma Nações Unidas forte onde estejam representados “os povos” e que contem com os recursos pessoais, financeiros e tecnológicos que lhes permitam ter a autoridade “democrática” que nunca terá a fórmula plutocrática dos G7/G8; uma economia de desenvolvimento global com grandes investimentos em fontes de energia renováveis e de baixíssimo custo que permitam um acesso generalizado a bens materiais, a produção, transporte e reciclagem da água para todos, a moradia... – em lugar da atual economia de guerra e especulação, que concentra a riqueza e o poder cada vez em menos mãos.

Não existe economia de guerra sem guerra, sem preparação para a guerra, sem pretextos para armar-se até os dentes. Os únicos capazes de se oporem a esta inércia colossal são “os povos”, é o poder cidadão, uma sociedade civil consciente de que não se deixa enganar, que apóie os governantes que, com valentia, estejam decididos a colocar em prática os princípios universais tão lucidamente expressos na Carta das Nações Unidas, na Declaração dos Direitos Humanos...

A política deve se basear em alguns princípios éticos geralmente aceitos. Incorporar determinados valores religiosos é inadequado e perigoso como também o é, e a experiência atual o demonstra, basear a ação política em aspectos estritamente econômicos. “É ignorância confundir valor e preço”, afirmou Don Antonio Machado.
Por isso, é tão necessário que a desculpa do choque de civilizações fique definitivamente excluída e que se afirme a implicação cidadã e a assunção de responsabilidades por parte de todos, sabedores de que todos podemos. Se unirmos nossas vozes e mãos, abertas, estendidas, nunca erguidas, então conseguiremos, em um grande clamor popular, reorientar os erráticos rumos presentes.

Precisamente no último dia 10 de abril no Monastério de Montserrat – perto de Barcelona – uma reunião de personalidades dos diferentes credos religiosos convocada pela Fundação Cultura de Paz divulgou uma declaração sobre as causas dos conflitos e exortando, de maneira muito concreta, a aplicação urgente de uma solução política para a dramática e inacabável situação no Oriente Médio, bem como em outros lugares do mundo. Crentes, ou não, os seres humanos devem ser respeitados igualmente e se envolver em ações solidárias com os mais necessitados. A única condição para o diálogo, aberto a todas as opiniões, é a não-violência, a não-imposição. “Todos no mesmo barco, Jesus, Buda, Maomé. Todos temos o mesmo destino”, destacou na reunião de Montserrat o ex-presidente do Irã, Mohammad Khatami.

No mesmo barco, com o mesmo rumo. Tão difícil é provocar a “explosão espiritual” da que falava Federico García Lorca, que significaria mudar a força pela palavra? As religiões devem dispor de mecanismos eficientes de contato e interação como estabelece a declaração para seu eficaz acompanhamento – com a finalidade de evitar prejuízos e estereótipos e sermos capazes de contribuir, deste modo, à construção de um futuro comum onde o desejo de paz deixe de ser uma saudação para se converter em uma realidade gozosa. (IPS/Envolverde)

Federico Mayor Zaragoza, presidente da Fundação para uma Cultura de Paz e ex-diretor-geral da Unesco.

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Fonte:

http://envolverde.ig.com.br/materia.php?cod=47098&edt=

 

 
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