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| Resgate da batata andina no coração de Cusco |
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| Notícias - Cultura ancestral | |||
| Escrito por Alysson | |||
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Resgate da batata andina no coração de Cusco Por Milagros Salazar* Um punhado de famílias peruanas se empenha em preservar 200 variedades de batata nativa nas alturas dos Andes, onde a humanidade a domesticou há oito milênios. HUAMA, Cusco, Peru, 5 de maio (Terramérica) - Um prato de batatas cozidas de diversos tamanhos, formas e cores é a saudação de boas-vindas a Huama, no sul dos Andes peruanos, 4.500 metros acima do nível do mar. “Sirva-se, senhorita, coma o que colhemos”, oferece Rafael Pilco, presidente dos conservacionistas desta comunidade pobre da região de Cusco que cultiva 200 variedades de batatas nativas e as protegem de pragas e impactos climáticos. Vestindo ponchos multicoloridos, os líderes do grupo e suas mulheres nos levam às chácaras, nas alturas onde conservam seu tesouro. Há mais de oito mil anos a batata (Solanum tuberosum) foi domesticada nesta região. O taxonomista (especialista em classificação) norte-americano David Spooner, da Universidade de Wisconsin, localizou seu lugar de origem entre Cusco e o Altiplano compartilhado com a Bolívia. Das 120 famílias de Huama, 40 se dedicam a conservar este alimento com base em conhecimentos e crenças ancestrais. As demais criam animais e plantam batata, depois milho, uluco (também um tubérculo) e outros vegetais. “Semeamos quando é lua cheia, porque, se o fizermos sem lua, vêm as enfermidades e a produção não é boa”, explica Pilco, em quéchua, com a anuência de seus companheiros. Há três anos, as 40 famílias abastecem dois dos melhores hotéis de Cusco, graças às possibilidades culinárias das variedades nativas e a um convênio que lhes permitiu vender até agora 20 toneladas. Cada quilo é vendido a meio dólar, com lucro de apenas 10%, calculam os camponeses, embora a rigor seja menos, porque não consideram o custo do transporte. As mulheres cuidam da transação porque, segundo reconhecem seus companheiros, elas são melhores comerciantes. O agrônomo Miguel Angel Pacheco, do Instituto Nacional de Inovação Agrária (Inia), ajuda com a tradução para o espanhol e contempla maravilhado o grau de organização desta comunidade. “A batata é o símbolo do Peru, como cultivo que permitiu o desenvolvimento nos Andes, como alimento básico, atividade e até como ritual. A batata significa pachamama (mãe terra), o que nasce da terra, e tem um grande potencial que pode contribuir com nossa economia”, explica ao Terramérica o estudioso Mario Tapia, consultor da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO). Vaidades de tradição ancestral A observação de batatas nativas, iniciada pelos incas, se manteve por séculos. Porém, quase se perdeu quando se multiplicaram as doenças e houve desvalorização destas variedades nas cidades, substituídas por espécies melhoradas, novas ou híbridas, obtidas por modernas técnicas e com altos rendimentos. Em Huama, apenas quatro famílias perseveraram na tradição, que há dez anos ganhou novo impulso. O que mudou? Eles dizem que melhorou a organização da comunidade quando esta decidiu renunciar ao alcoolismo, muito comum nos Andes peruanos. “O álcool provocava desnutrição das crianças porque os país deixavam seus filhos abandonados sem alimentá-los, e também ocasionava violência familiar”, explica o presidente comunitário Gregorio Barrientos. Quem incorre nele, “mesmo com um só trago”, deve pagar multa de US$ 54. Camilo Huaraca, de 48 anos, é a cabeça de uma daquelas quatro famílias que hoje tem mais de 150 variedades em suas terras. “Sou conservacionista por herança de meus avós. Antes, havia apenas 60 variedades, mas ampliei minha coleção nas feiras, onde se trocava sementes com outros camponeses”, conta ao Terramérica. Nas feiras promovidas por organizações não-governamentais, como Arariwa, camponeses de diversas regiões do país participavam exibindo suas variedades e os ganhadores eram premiados com esterco ou ferramentas de trabalho. De olho nos mercados Este mês, o Ministério da Agricultura, com apoio da FAO, vai premiar 35 famílias conservacionistas. O processo compreende painéis nos quais são selecionados os finalistas e recolhidas suas demandas de assistência, sob a direção do pesquisador Tapia. As Nações Unidas celebram o Ano Internacional da Batata neste 2008, sacudido pela escassez e carestia de muitos alimentos básicos. No Perum existe o maior banco de germoplasma do mundo: sementes, cultivos de tecidos ou coleções de plantas de cinco mil variedades de toda a região andina, das quais mais da metade é originária deste país. O manejo e a pesquisa estão nas mãos do não-governamental Centro Internacional da Batata. Em Huama, a FAO desenvolveu um programa para melhorar sementes, e a sede do Inia em Cusco se comprometeu com assistência para aumentar a produção e vincular os camponeses com mercados atraentes. O Instituto também estuda a riqueza culinária e alimentícia da batata para colocar a informação ao alcance de camponeses e empresários que querem investir na elaboração de produtos com variedades nativas. “A batata ‘puca sonjo’ tem alto conteúdo de betacaroteno, que ajuda a prevenir o câncer. Isto confere um valor agregado ao consumo deste alimento”, explica Palomino. Luta contra o clima O presidente do Inia, Walter Delgado, viajou com o Terramérica para Huama, onde comprovou a queda da produção deste ano, depois de três geadas e pouca chuva. Os camponeses afirmam que está em perigo o sustento de suas famílias e também a venda de cinco mil quilos de batatas nativas aos hotéis de Cusco. Para suportar essas inclemências, os camponeses desenvolveram a semeadura por mescla: plantam diferentes espécies dispersas em uma mesma área, o que melhora as perspectivas da colheita, já que algumas são mais resistentes do que outras. Os especialistas do Inia pretendem abordar outros desafios com o projeto Andenes, no qual estudam as características agronômicas da batata, incluindo sua adaptação a temperaturas muito altas e à descoberta de novos vírus. Por outro lado, os camponeses não renunciam a práticas ancestrais para garantir a colheita, como pagamento à terra de uma oferenda que inclui seus melhores frutos e a presença do “arariwa”, guardião dos cultivos. “É eleito por todos nós, é uma pessoa respeitada e tratada como primeiro-homem”, explica Huaraca. * A autora é correspondente da IPS. LINKS EXTERNOS +Agricultura-Peru: O caminho da batata + Batatas estréiam supergenes +Camponeses resgatam batata nativa +Centro Internacional da Batata, em inglês +Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação +Instituto Nacional de Inovação Agrária +Arariwa Crédito de imagem: Milagros Salazar/IPS
(Envolverde/Terramérica) - Fonte: http://envolverde.ig.com.br/materia.php?cod=46410&edt=
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