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Por que eu não compro arroz de Roraima Imprimir E-mail
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Notícias - Ponto de vista
Escrito por Alysson   

Por que eu não compro arroz de Roraima

Sinceramente, tenho minhas dúvidas sobre o tão festejado poder transformador dos novos hábitos de consumo frente às práticas selvagens do capitalismo. Embora eu duvide que os consumidores consigam modificar a lógica das empresas (que, ao fim e ao cabo, têm o lucro como objetivo máximo), também não ignoro o papel militante do chamado consumo consciente em nossa sociedade. E é por isso que, apesar de serem os mais baratos, não compro arroz das marcas Faccio, Itikawa ou Acostumado - e espero que você, após ler esse artigo, também não compre!

Não estou, felizmente, sozinha nesta campanha. O poeta Ribamar Bessa, em crônica publicada no “Diário do Amazonas”, jornal de Manaus, já propôs o boicote a todas as marcas de arroz produzidos em Roraima, frutos da invasão da terra indígena Raposa Serra do Sol. Em minha estréia no Overmundo, eu escrevi sobre o programa radiofônico “Vamos Aprender Macuxi”, falado na língua do povo mais numeroso que tradicionalmente habita essa área (ao lado dos Wapichana, Ingarikó, Taurepang e Patamona). A Raposa Serra do Sol está de novo sob os holofotes tendenciosos da mídia nacional, porque sua homologação em área contínua (efetivada em 2005, após 30 anos de luta do Conselho Indígena de Roraima – CIR) está sendo contestada no Supremo Tribunal Federal (STF).

Muita terra para quem, cara pálida?

Nesta sexta-feira (19 de junho), acompanhei na Universidade Federal do Amazonas o debate “Raposa Serra do Sol e o futuro da Amazônia”. Impressionou-me a riqueza de dados da exposição do representante do CIR, Júlio Barbosa, do povo Macuxi, que desmontou um a um os argumentos contra a homologação em área contínua.

Um dos mais freqüentes é de que é “muita terra para pouco índio”. No caso da Raposa, são 1,74 milhão de hectares para 19.025 pessoas, com um crescimento populacional anual de 4% (bem acima da média estadual e nacional). Atualmente, isso representa uma densidade populacional de 1,1 habitante por quilômetro quadrado – que pode parecer baixa para os padrões do Sudeste, mas é quase o triplo da densidade populacional (0,4 hab/Km²) das demais áreas rurais de Roraima. Ou seja, com 7,7% da área total do estado, a terra indígena Raposa Serra do Sol concentra 21,4% de sua população rural (dados do IBGE, de 2007). Claro, pode-se argumentar que, de maneira geral, a população no campo é pequena. Mas, para isso, é preciso se questionar por que ela é reduzida? E a explicação será encontrada no processo êxodo rural ligado à concentração fundiária – na Amazônia, implementado à base de chumbo e grilagem, com a conivência histórica do Estado. A triste ironia é que a opinião pública dificilmente se levanta para reclamar que “é

muita terra para pouco latifundiário”.

Quantos cabem no seu todos?

Outro argumento falacioso é o de que a demarcação dos territórios indígenas em áreas de fronteira ameaça a soberania nacional. Sindicatos, movimento estudantil, teatro, literatura, cinema, artes plásticas, muitas já foram as vítimas desse pseudo-nacionalismo militarista. O discurso autoritário, que não reconhece nossa diversidade cultural e étnica (afinal, serão os militares mais brasileiros que os povos indígenas?), de vez em quando volta à tona, em declarações preconceituosas como a do comandante Militar da Amazônia, general Augusto Heleno.

Supostamente fã de Hugo Chavez, o líder dos arrozeiros e prefeito do município de Pacaraima, Paulo César Quartiero, declarou à imprensa que gostaria de ver parte do território de Roraima incorporado à Venezuela. Ele acredita que, com isso, conseguiria manter a posse das suas fazendas localizadas dentro da Raposa Serra do Sol – de onde já deveria ter saído, no máximo, em 15 de abril de 2006, já tendo recebido (depósito em juízo) a indenização correspondente. Por que o Exército e os formadores de opinião não acusam o latifundiário de ser uma ameaça à soberania nacional?

Basta de violência: comece pelo seu prato

Mas talvez a maior ameaça representada pelos arrozeiros de Roraima, mais do que o risco à soberania nacional, seja a destruição do meio ambiente e das pessoas que nele vivem e dele cuidam. As plantações irrigadas de arroz funcionam à base de agrotóxicos, desmatamento, contaminação do solo e das águas. Não por acaso, no mês passado, o Ibama multou Quartiero em R$ 30,6 milhões, por crimes ambientais.

Não por acaso, também, o líder dos arrozeiros foi preso pela Polícia Federal, por se auto-proclamar mandante dos ataques ocorridos contra os indígenas no último dia 5 de maio. Desde 1981, de acordo com dados do CIR, 21 indígenas Macuxi, Wapichana, Ingarikó, Taurepang e Patamona foram assassinados na luta pela demarcação da Raposa Serra do Sol, 103 sofreram atentados e agressões físicas, 10 mulheres foram estupradas. A violência se volta também para os bens materiais das comunidades, com impressionantes dados de construções destruídas e/ou queimadas: 90 casas, 31 retiros comunitários, oito roças, três escolas.

O processo de identificação, demarcação, homologação e registro da terra indígena Raposa Serra do Sol, iniciado formalmente em 1993 (e concluído em 2005), seguiu todas as etapas e atendeu a todas as exigências estabelecidas pela Constituição Federal de 1988. Em agosto próximo, os ministros do STF decidirão se rasgam ou não parte da nossa Carta Magna, no seu aniversário de 20 anos. A nós, reles mortais que temos a proclamada liberdade estabelecida pelo mercado, cabe-nos decidir se queremos ou não ter em nossas mesas o arroz sangrento de Roraima. Comprar produtos das marcas Faccio, Itikawa e Acostumado é ser conivente com o crime.

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Fonte:

http://www.portaldomeioambiente.org.br/noticias/2008/junho/24/5.asp

 
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