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Notícias - Educação
Escrito por Herbert   

Evento debate ensino superior para povos indígenas

Por Talita Mochiute, do Aprendiz

Há cerca de 6 mil indígenas no ensino superior brasileiro de acordo com dados do Ministério da Educação (MEC). Para diagnosticar a situação atual do ensino superior para os povos indígenas e analisar as experiências em curso ocorre, até sexta-feira (17/7), o I Congresso Brasileiro de Acadêmicos, Pesquisadores e Profissionais Indígenas, na Universidade de Brasília (UnB).

Entre as questões em debate estão: os desafios para a permanência dos índios na universidade e a qualidade dos cursos. “Também pretendemos discutir o significado e o impacto da inserção dos indígenas no retorno às aldeias. A partir daí, finalizaremos com encaminhamentos de políticas públicas, buscando a ampliação e melhora do acesso ao ensino superior”, explica o coordenador do congresso e diretor executivo do Centro Indígena de Estudos e Pesquisa (CINEP), o antropólogo, Gersem Luciano Baniwa.

De acordo com o professor da Universidade Católica Dom Bosco, de Mato Grosso do Sul, e coordenador da Rede de Saberes, Antônio Brand, para os povos indígenas, está cada vez mais clara a importância estratégica do espaço acadêmico para melhorar o diálogo da comunidade com o entorno. “Neste sentido, vinculo a questão do acesso e da permanência dos índios na universidade à questão da autonomia”.

A demanda inicial era por cursos de licenciatura. A formação de professores indígenas para atuar nas escolas das aldeias foi uma decorrência da Constituição de 1988. A legislação garantiu o ensino escolar bilíngue e diferenciado aos índios. “Avançamos bastante nas licenciaturas. O problema maior está nas demais áreas do conhecimento. Por exemplo, há demanda para os cursos de direito, saúde e agronomia. Mas como ficam os conhecimentos indígenas?”, questiona o historiador Brand, que também participa do evento na UnB.

Essa nova demanda impõe novos desafios para as universidades. “É fundamental o diálogo de saberes para que o acadêmico, ao concluir o curso, esteja capacitado para desenvolver sua comunidade”, analisa Brand.

Baniwa acredita que a luta por uma universidade intercultural será longa. “É importante que os alunos se sacrifiquem, se apropriem do conhecimento para produzir mudanças junto aos seus pares”.

O engajamento dos índios nas pesquisas em programas de mestrado e doutorado é defendido por Brand. Para o professor, a questão do diálogo dos saberes só avançará na medida em que houver mais índios pesquisadores. “Em diversos países, temos as universidades interculturais. No Brasil, a questão é muito incipiente. Temos muito a aprender com os outros países. No México, por exemplo, há 9 universidades interculturais com a experiência do diálogo de saberes”, afirma Brand.

Absorção dos profissionais

Além do acesso ao ensino superior, os participantes do Congresso discutem o retorno dos acadêmicos para suas aldeias e a absorção dos novos profissionais. “A grande dúvida era se os índios voltariam, ou não, às aldeias. As experiências indicam os dois movimentos. Ambos geram benefícios à comunidade indígena. Aqueles que não retornam se comprometem em diversas esferas, como espaços de governo, e lutam em defesa do seu povo”, diz Baniwa.

Para o professor Brand, a questão não é nem o retorno à aldeia, mas como esses profissionais se inserem dentro das demandas dos seus povos. “No âmbito da licenciatura, a necessidade de professores existe e é continuada. O problema se apresenta aos índios formados em direito, na área da saúde e em agronomia”.

“Quem vai contratá-los? Como vai ser a atuação do profissional dos cursos de medicina? Como vai se relacionar com a medicina tradicional?”, problematiza o diretor executivo do CINEP. Baniwa vê um caminho por meio de políticas públicas: os órgãos governamentais de atendimento às populações indígenas poderiam absorver esses profissionais.

Acesso e permanência

Hoje, dos 6 mil índios no ensino superior, cerca de mil recebem bolsa em universidades públicas por meio de convênio com a Fundação Nacional do Índio (Funai) e outros 1,6 mil professores indígenas recebem auxílio do Programa de Apoio à Formação Superior e Licenciaturas Indígenas (Prolind). Há ainda 961 que contam com bolsas em faculdades particulares, pelo Prouni.

Segundo Baniwa, a maioria dos índios entra no ensino superior por meio de ações afirmativas, não necessariamente por políticas de cotas.  A principal porta de acesso ainda é a licenciatura. Uma das dificuldades para a ampliação do número de índios na Universidade é o acesso ao ensino médio que conta com apenas 7 mil alunos. Já o ensino fundamental agrega 180 mil crianças e adolescentes.

“Precisamos ter mais índios no ensino médio. Além disso, é necessário o investimento na qualidade para que acompanhem melhor os conteúdos da graduação”, afirma Baniwa, representante indígena no Conselho de Educação.

Outro desafio é garantir a permanência na universidade. “Não há só a questão material, mas também a adaptabilidade ao mundo urbano e acadêmico. Por isso, os programas devem mesclar subsídios e orientação”, fala o diretor do CINEP.

No Mato Grosso do Sul, a Rede de Saberes trabalha nessa área. O projeto apoia os estudantes indígenas da Universidade Católica e das três universidades públicas do estado. Eles participam de monitorias e de cursos suplementares.

“As organizações indígenas têm bastante clareza do problema. O Congresso, com intensa participação de pesquisadores indígenas, cria uma importância para essa demanda sob a ótica indígena. Há legislação. Falta agora adequar as políticas e as práticas para que o acesso e a permanência ocorram de maneira efetiva”, conclui o coordenador da Rede de Saberes.


(Envolverde/Aprendiz)

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Fonte:

http://envolverde.ig.com.br/materia.php?cod=60667&edt=

 
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