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| Entrevista com o indigenista Sidney Possuelo |
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| Escrito por Alysson | |||
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Entrevista com o indigenista Sidney Possuelo BRASIL Sydney Possuelo: Índio e ‘homem branco’: duas humanidades diferentes que se encontraram em determinado tempo e espaço
Sydney Possuelo: Índio e "homem branco": duas humanidades diferentes que se encontraram em determinado tempo e espaço
Sydney Possuelo - Há uma incoerência na política do governo quando ele, tendo uma Fundação Nacional do Índio, a sufoca quase à exaustão, não lhe repassando orçamento, não efetuando novas contratações, ao mesmo tempo em que distribui bilhões a organizações não governamentais, as quais têm sido alvo de CPI para investigar a lisura na aplicação dos recursos. O conjunto das disposições legais que determinam a política indigenista brasileira sempre foi visto como um dos mais avançados nas Américas. Entretanto, atualmente a política aplicada está distorcida, distanciando-se dos interesses das populações indígenas. Sydney Possuelo - Talvez porque, quando se passa a vida inteira ao lado das armas, passamos a acreditar que elas, ou sua força, são a solução para todas as divergências. Sydney Possuelo - O governo demorou muito para demarcar a terra indígena e o tempo que passa, por omissão, descaso, ou pela eterna morosidade da justiça, ou dos entraves que os políticos arquitetam, trabalham sempre a favor dos não-índios, fornecendo-lhes tempo para consolidarem suas invasões e se justificarem. Raras são as grandes extensões de propriedades particulares, cujas origens não estiveram envolvidas com violência e grilagem de terras. É por isso que os chamados "brancos" não querem deixar as terras que não lhes pertencem, porque acreditam que o processo acima descrito lhes será favorável. IHU On-Line - Em que sentido a demarcação da reserva dos Yanomami pode servir de exemplo para o que vem acontecendo em Raposa Serra do Sol? Sydney Possuelo - Como presidente da Funai, conduzi o mais intenso e substancioso processo de demarcação de terras indígenas até então efetuado. Num ano, conseguimos duplicar a superfície das terras indígenas no Brasil. Buscávamos cumprir a Constituição de 1988 que, como as anteriores, determinava que todas as terras indígenas deveriam ser demarcadas no prazo máximo de cinco anos. Passaram 16 anos após as demarcações e a terra Yanomami e a Amazônia continuam tão brasileiras como antes, apesar de que, quando a demarcávamos, a gritaria era exatamente igual e efetuada pelos mesmos que hoje não querem demarcar Raposa Serra do Sol. Sydney Possuelo - Só se formam cidadãos respeitando-se os princípios que estão estabelecidos na Constituição e nos direitos humanos; o respeito ao diferente; a solidariedade aos mais desprotegidos e justiça aos que viram tombar seus antepassados em defesa de suas terras imemoriais. A nossa sociedade foi arquitetada para nós, digo, os brancos. Ela não abre espaço para vários segmentos que a compõe, principalmente os povos indígenas. Sydney Possuelo - Vários "antigos" diziam que são duas humanidades diferentes que se encontraram em determinado tempo e espaço. Penso que compete a mais forte, a que se diz mais "inteligente e civilizada", a atitude ponderada, o estender a mão, a iniciativa de conciliação, a solidariedade e o gesto de justiça. IHU On-Line - O senhor escreveu recentemente que "estaremos na contramão da história se não reconhecermos os direitos dos povos que precederam a invenção dos brasileiros". Qual é a origem da construção histórica que se fez dos povos indígenas? Como se formou a imagem dos índios que aprendemos na escola? Sydney Possuelo - Os conquistadores justificaram suas atitudes durante a conquista da América através de um mar de preconceitos infundados que forneciam o respaldo moral para a extrema violência que empregaram. Com o passar do tempo, fomos incorporando na sociedade que então se iniciava os estereótipos que durante a conquista a Coroa e depois a República, sempre com a participação da Igreja Católica, ajudaram a difundir. Faz alguns anos que o Canadá devolveu ao povo indígena Inuit a extensão de dois milhões de Km2 no Território do Noroeste do Canadá. O que me chamou a atenção foi um pedido de desculpa que acompanhou a devolução. O governo canadense pediu desculpas pela violência e pelas injustiças que haviam sido cometidas contra aqueles povos durante a conquista. Mais recentemente, o governo da Austrália procedeu da mesma forma e, através de seu Primeiro Ministro, apresentou um formal pedido de perdão aos aborígenes australianos. Observe como são tratados os povos autóctones da Nova Zelândia, pelos quais o povo e governo têm admiração e respeito. Enquanto isso, aqui, do outro lado do mundo, estamos cada vez mais na contramão da história, negando aos povos indígenas as suas terras tradicionais e, ainda, lamentavelmente, matando-os a tiros como aconteceu recentemente na região de Roraima. Sydney Possuelo - Carapiru é uma lição de vida. Seu drama é tão triste como o de Jó. Perdeu todas as referências da sua vida e ficou condenado vagando solitário, por dez anos, na selva. Carapiru, despojado de tudo, sem ter absolutamente nada mais do que seu arco e sua flecha, não se entregou ao desespero, não ficou demente, não cometeu vilanias ou atrocidades. Antes, manteve-se tranqüilo e procurou viver como que lembrando a todos nós que o nosso bem maior é a vida e tudo mais é efêmero e passageiro. Instituto Humanitas Unisinos - Fonte: http://www.adital.com.br/site/noticia.asp?lang=PT&cod=33033
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