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Notícias - Ecoterra
Escrito por LuaEstrela   

Agricultura Urbana pode ajudar a proteger áreas verdes da cidade

Marina Utsch, Jornalista Ambiental

Mata do Taquaril, região leste de Belo Horizonte. Há 20 minutos do centro da cidade, uma Área de Proteção Ambiental (APA) ameaçada pela expansão imobiliária.

Centro de Vivência Agroecológica (CEVAE),  bairro Capitão Eduardo, região Nordeste de Belo Horizonte. Uma área de vegetação nativa ainda resiste no que já foi uma fazenda na década de 60  e que hoje é um bairro da periferia.

Os dois locais são refúgios ecológicos dentro da cidade. Pouco aproveitados pela população, esses espaços verdes acabam sofrendo com o descuido, o lixo, o vandalismo e ainda são ameaçados pela expansão imobiliária. A responsabilidade por estarem ainda conservados se deve em parte ao trabalho coletivo de agricultores urbanos. São raizeiros, conhecedores tradicionais e educadores populares que, com caminhadas periódicas para recolher plantas medicinais, acabam protegendo essas reservas. “Essa é uma dimensão da agricultura urbana, prática que pode ser realizada em diferentes espaços e de diferentes formas. Temos desde hortas em pequenos locais cimentados, como lajes, até a possibilidade de uso de áreas maiores, como lotes vagos e vazios urbanos, que não estão cumprindo sua função social. E há ainda essa outra experiência: a dos conhecedores e educadores populares que usam áreas verdes da cidade para o manejo de plantas medicinais do Cerrado”, explica Daniela Almeida, integrante da equipe técnica da Rede de Intercâmbio de Tecnologias Alternativas, que fomenta a prática da agricultura urbana em Belo Horizonte.

Guardiões do Cerrado

Há 15 anos trabalhando com plantas medicinais, o casal Fernando Vieira e Aparecida Arruda já conduziram diversos grupos de conhecedores e curiosos por caminhadas em áreas verdes. Na última caminhada, que contou com a participação de mais de 20 agricultores urbanos foram coletadas mais de 50 espécies de plantas medicinais na região da APA Taquaril. “Antes nós trabalhávamos com espécies exóticas. Depois, com o tempo, fomos descobrindo que não precisávamos ir longe para ter plantas medicinais. Descobrimos a vegetação natural de nossa região e as enormes potencialidades medicinais das plantas do Cerrado. A importância de trabalhar com plantas do Cerrado é valorizar a vegetação local. E a gente acaba conhecendo muito essas áreas de vegetação natural que ainda existem na cidade”- comenta Fernando, durante a caminhada.

Outra área verde na cidade protegida por agricultores urbanos, a APA do Capitão Eduardo, já foi alvo de projetos como o Aterro Sanitário de Belo Horizonte. Depois de muito protesto, os moradores conseguiram impedir a instalação do aterro, mas não puderam barrar a construção de um Centro de Recuperação de Menores no local, destruindo uma nascente onde era coletada argila pelos moradores. É no refúgio urbano dessa APA, em parte localizado dentro do Centro de Vivência Agroecológica do bairro, mantido pela Prefeitura, que mais de 10 famílias cultivam hortaliças sem agrotóxicos, contribuindo para a qualidade da alimentação e da saúde da comunidade local. É também nessa área que o Grupo de Agricultura Urbana do Capitão Eduardo coleta plantas medicinais para fazer xaropes e remédios naturais.

As oficinas promovidas pelo grupo já ajudaram muita gente, que hoje é parte do projeto, como Rosimeire  Bernardes:“Cheguei a tomar 4 tipos de remédios antidepressivos. Minha filha também tinha uma asma persistente. Foi por precisão e preocupação com minha filha que entrei no grupo. Desde então, ela começou a tomar o xarope caseiro e há 8 meses que ela na precisa usar bombinha e eu não uso antidepressivos. A alimentação também melhorou: agora eu uso toda a abóbora, aproveitando o alimento até a casca, e pico transagem no meio da couve.”

Por uma alimentação adequada e saudável

Da saúde à alimentação, os agricultores urbanos atuam em frentes invisíveis, promovendo um trabalho que não é contabilizado. A prática contribui para a melhoria da alimentação, da saúde e da qualidade de vida, resgatando conhecimentos antigos de moradores, que foram perdendo o contato com a terra e a natureza por causa da rotina da grande cidade.

É um sistema de saúde paralelo ao oficial, responsável por resgatar diversas práticas que promovem o bem-estar das comunidades. Diretamente conectada à questão das plantas medicinais e da saúde, está a questão da Segurança Alimentar e Nutricional da população. O termo abarca diversas perspectivas da questão alimentar: desde a necessidade de qualidade e quantidade suficiente de alimentos na dieta de cada um à perda da relação com o alimento.

O acesso ao alimento é tão mediado pela indústria e pelo comércio que pouco se sabe da origem daquilo que se come. A agricultora Cassandra Pereira conta o que conseguiu compreender a partir da reflexão sobre o termo. “Me dei conta que estou comendo no escuro há mais de 30 anos, pois não sabemos o que estamos comendo, de onde vem, como é produzido. ”

Ao rememorar a alimentação dos antigos (inhame, mandioca, fubá, milho, frutas, verduras e quitutes, produzidos em casa ou na vizinhança), os agricultores urbanos se dão conta da realidade muito diferente vivida hoje na cidade.  A estudante Maura Coutinho, integrante do Grupo Aroeira, que promove agricultura urbana, complementa: “Falar desse assunto não é falar só de nutrir o corpo, mas também de uma questão cultural. Se eu moro no Amazonas, minha alimentação será diferente. E eu tenho que ter acesso aos alimentos da minha região. Mesmo com pouco espaço em casa, é possível produzir e se alimentar com algo mais próximo e mais seguro.”

O direito ao alimento de qualidade, e que tenha sido produzido de forma justa para a natureza e para as pessoas que dele tiram o seu sustento, é uma conquista ainda nova. Não é mais simplesmente a fome o debate. É também todo o sistema em torno da indústria da alimentação. O sistema de produção que exaure a natureza, que coloca em risco à saúde e que explora o trabalhador por causa de um critério de produtividade e lucro também está sendo questionado. O consumidor na ponta, que come o alimento, também é parte desse sistema.

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Fonte:

http://www.portaldomeioambiente.org.br/index.php?option=com_content&view=article&id=1243


 

 
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