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| A mídia deve dar visibilidade à paz |
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| Notícias - Comunicação e expressão | |||
| Escrito por Herbert | |||
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A mídia deve dar visibilidade à paz ENTREVISTA / Jake Lynch Diretor do Centre for Peace and Conflict Studies (Centro de Estudos de Paz e Conflitos) da Universidade de Sydney, o jornalista australiano Jake Lynch percorreu um longo caminho na sua vida profissional. Trabalhou para a BBC, para o London Independent e a Sky TV; cobriu conflitos no Oriente Médio e no sudeste europeu e asiático, tendo se tornado um ardente defensor do "jornalismo de paz", um conceito que não é tão simples quanto possa parecer. "A maior parte do jornalismo que vemos por aí é um jornalismo de guerra. O jornalismo convencional cobre muito mal os conflitos; privilegia a violência, simplifica a complexidade, omite informações sobre iniciativas pacíficas. De fato, o jornalismo convencional alimenta a violência e a guerra, e é por isso que eu o chamo de jornalismo de guerra", afirma. O jornalismo de paz, ao contrário, é feito por repórteres que são incentivados a pensar criticamente - não necessariamente para promover a paz, mas ao menos dar uma chance a ela. Por que você chama o jornalismo feito hoje de 'jornalismo de guerra'? A convenção dominante entre a maioria dos jornalistas é recontar uma narrativa de eventos, e não processos. Isso significa que tendemos a ter relatos dos atos violentos, dos confrontos. E o que está faltando ao jornalismo convencional? O que não ficamos sabendo - aquilo que vemos muito menos na mídia - é por que as pessoas estão em conflito. Precisamos cobrir os processos que levam a um acontecimento violento e as causas subjacentes ao conflito. Qual é o problema de se concentrar somente nos eventos? E qual o papel da mídia nisso tudo? Esta tem sido, na verdade, a ideologia que acompanha a guerra ao terror... A proposição segundo a qual o terrorismo é algo contra o que se pode fazer guerra - de que a guerra é um remédio contra ele - depende da premissa de que o terrorismo simplesmente surge, e que as pessoas que o praticam são ou loucas ou malvadas, e que isso é só o que você precisa saber sobre o assunto. Quando você começa a investigar como e por que essa forma de violência política consegue ter esse apelo, essa atração em algumas mídias sociais, em uma determinada época e lugar, então você começa a dizer que o que é necessário - como um remédio contra o terrorismo - é justiça, desenvolvimento, um pouco mais de igualdade... Você precisa enfrentar as genuínas injustiças históricas sofridas pelas pessoas. Um jornalismo melhor significa dar visibilidade à paz? Poderia-se pensar que o jornalismo de paz é algo para as publicações especializadas ou de elite, e não para as massas? Claramente há mais espaço para o jornalismo de paz nos chamados "jornais sérios" do que nos tablóides. Mas isso não quer dizer que não se pode fazer jornalismo de paz na imprensa popular. O Daily Mirror, do Reino Unido, por exemplo, realizou um excelente trabalho nesse sentido, no período que antecedeu a invasão do Iraque. Obviamente, era um jornal anti-guerra naquela época. Também há uma presença razoável de jornalismo de paz em publicações como o Financial Times, The Economist ou The Spectator Magazine. Eu estou envolvido em pesquisas para usar o jornalismo de paz no sentido de estabelecer um padrão global para cobertura de conflitos. Isso significa um jornalismo capaz de se encaixar nos procedimentos ISO (International Standardization Organization), que conferem garantias de qualidade. Empresas de qualquer ramo em qualquer lugar do mundo podem adotar certas práticas, e o grupo local de certificação irá decidir se elas merecem a garantia de qualidade ou não e, quando elas tiverem conseguido uma, poderão usar como um argumento de marketing. A minha esperança é que consigamos fazer isso - estabelecer esse padrão global - e que as agências e organizações noticiosas em geral comecem a trabalhar no sentido de fazer mais jornalismo de paz. Isso seria um caminho para mudar a estrutura na qual os jornalistas trabalham, abrindo, assim, espaço para jornalistas de paz. Primeiramente, quando cobrimos conflitos, devemos encontrar maneiras de incluir o contexto e as circunstâncias, e de oferecer relatos plurais. Não basta apenas limitar a cobertura à descrição e narração do que explodiu em que lugar. Em segundo lugar, devemos dar espaço para as pessoas que estão propondo, sugerindo, desenvolvendo e defendendo iniciativas de paz de qualquer tipo, não importando se essas pessoas são as nossas fontes usuais ou não. Pergunte a si mesmo: estou apresentando o conflito como se fosse um grande cabo-de-guerra - dois lados lutando por um mesmo objetivo - ou estou encontrando uma maneira de apresentá-lo como multifacetado, ou seja, um conflito com muitos lados, muitos objetivos, e que pode ter várias divisões internas? Pode dar um exemplo de iniciativa de jornalismo de paz? O argumento é que, se você faz esse tipo de cobertura, você está fazendo um jornalismo voltado para a paz. E um jornalismo voltado para a paz é um jornalismo melhor e, portanto, merece um reconhecimento global de qualidade. Más notícias são apenas notícias. Se algo de ruim acontece, não devemos simplesmente nos habituar com o ocorrido; devemos estar alertas quando acontecer. A questão não é se devemos ou não dar más notícias, mas sim como fazê-lo. Estamos apenas trazendo para as pessoas uma série de problemas, ou nós vamos ouvir pessoas que não darão a percepção de quais as soluções possíveis? Esse conceito é apropriado para situações além das de guerra, como violência urbana, de gangues etc? E quando a mídia se prende no mesmo círculo de notícias e fontes? O que temos nesse caso é uma Peace Building Gap (lacuna na construção da paz), um conceito definido pelo teórico John Paul Lederach. Relacionado ao conceito de Justice Gap, há um segundo conceito, chamado de Interdependence Gap (lacuna de interdependência). O senhor pode nos dar um exemplo dessa criatividade? Posso dar dois. Um é a Irlanda do Norte, que enfrentava um longo conflito. Chegou o tempo em que o governo deveria propor conversas sobre a paz - já havia todo tipo de negociações privadas, não-oficiais. Todo mundo estava esperando pelo veredito do maior partido do país, o Ulster Unionist Party (UUP). Eles tinham o futuro da paz nas mãos. Seus parlamentares estavam divididos. Então, um jornal chamado The Newsletter - lido pela maioria dos partidários do UUP - fez uma pesquisa de opinião com a seguinte pergunta: "Você apoia a entrada do UUP nas negociações de paz?". O "sim" venceu com 86%. Uma vez feito isso, o partido se juntou às negociações, foi alcançado um acordo de paz, e a situação agora é muito melhor. O jornal encontrou uma maneira de contornar o impasse. E o outro exemplo? O Morning Herald teve uma idéia muito interessante para colocar a mudança climática na agenda. Eles fizeram uma campanha para todos na cidade desligarem as luzes por uma hora. Depois disso, publicaram as fotos de antes e depois na primeira página. Isso pôs a mudança climática na agenda pública e se tornou uma das questões nas eleições, contribuindo eventualmente para o fim daquela administração. Tradução: Bernardo Tonasse - Fonte: http://envolverde.ig.com.br/materia.php?cod=55323&edt=
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