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| A luta indígena é contra extinção da humanidade |
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| Notícias - Ponto de vista | |||
| Escrito por LuaEstrela | |||
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A luta indígena é contra extinção da humanidade Por Danilo Dara O historiador indígena Edson Brito, também conhecido como Edson "Kayapó", está a todo momento pensando na humanidade e na natureza como um Todo. Sabe que o tempo corre contra ele e seus parentes. E tem convicção também que esse tempo, "civilizatório científico-capitalista", corre contra todos os humanos. Para ele a atual crise econômica é agravante de um colapso civilizatório muito maior, que tem longas raízes históricas, científicas e filosóficas. Trata-se, portanto, de uma grave crise produzida por um modo de vida que destruiu e destrói muitas outras formas de viver, muitos outros modos de relacionamento entre humanos e natureza. Verdadeiros viveres cuja luta pela sobrevivência mobiliza por inteiro o índio guerreiro que traz em seu nome, Kayapó. Contra um modo de viver "estúpido e suicida": "veja só São Paulo: quando explico para meus filhos que o Tietê é um rio eles não acreditam: como pode ser se fede tanto? A vida parece não fazer mais sentido, e as pessoas esperam a hora dela acabar, muitas já não pensam mais sequer em ter os seus filhos". Contra esta barbárie, o historiador indígena traça sua resistência, marcada principalmente por muito estudo: "meu objetivo é desmascarar toda essa concepção científica e civilizatória, mano! Só preciso ir juntando os muitos fios, as muitas informações que tenho". E é esta urgência que vive cotidianamente seja em São Paulo (onde hoje faz seu doutorado em "Educação: história, política e sociedade" na PUC-SP), seja no Oiapoque (onde nasceu e também segue atuando). O mote inicial de nossa conversa foi a recente votação no Supremo Tribunal Federal sobre a demarcação contínua do Território Indígena Raposa Serra do Sol (TI-RSS), na região de Roraima, extremo norte do país. Porém, desde o início Edson fez questão de ressaltar implicações muito mais profundas a partir desta questão aparentemente só indígena: "nós indígenas passamos milênios na Amazônia e conseguimos conhecê-la profundamente, respeitá-la e preservá-la, enquanto a civilização científica capitalista, além de massacrar brutalmente nosso povo, em poucos anos a tem desmatado e destruído progressivamente, como nunca antes". Para ele há muito tempo a questão indígena deixou de ser uma luta específica dos povos originários pelos seus direitos constitucionais para se tornar uma questão de todos os homens e mulheres do planeta. Prova isso com muitos dados e exemplos. Em sua opinião, ou a "civilização científica capitalista tem pela primeira vez na história a humildade de assumir seus limites e sua ignorância" sobre uma série de complexas questões - entre elas, a preservação da Amazônia, e a própria relação entre humanos e natureza -, ou estaremos todos fadados à extinção. Nesse sentido é enfático: "o nó da questão, que a sociedade brasileira e mundial precisam entender, é que as terras amazônicas sob o cuidado dos indígenas é uma garantia para toda humanidade. Ao retirar a autonomia dos indígenas sobre suas terras estão assinando a sentença de morte da humanidade". O alerta aqui tem em vista as 19 condicionantes propostas pelo Ministro Menezes Direito e aprovadas junto com a demarcação contínua da RSS, que teoricamente se estenderia a outras terras já demarcadas ou por demarcar. Na opinião de Edson: "um verdadeiro golpe, inconstitucional, contra a autonomia indígena e de lesa-humanidade". Porém, para chegar a tais conclusões, Kayapó deu uma verdadeira aula que começou com seu itinerário pessoal por diversas cidades do país, e foi parar numa complexa discussão sobre conhecimento, espiritualidade e filosofia indígena. Edson fez questão de ressaltar, entretanto, que não é representante legal de nenhum povo indígena, muito menos do movimento como um todo - que é bastante complexo e diversificado. Na entrevista, portanto, há opiniões pessoais, deve-se dizer, de um intelectual indígena. Opiniões que também passaram por uma contundente crítica a grandes empreendimentos na região amazônica, à política de parques nacionais ("na prática uma verdadeira internacionalização privada de nossas terras"), e pela defesa das cotas para indígenas nas universidades do país... A conversa contou também com as contribuições da geóloga indigenista Miryám Hess, ativista em prol das lutas indígenas que, assim como Edson Kayapó, contribuíram na construção da sessão indígena do "Tribunal Popular: o Estado Brasileiro no Banco dos réus", realizado em São Paulo no final de 2008. BdF: Poderia começar contando um pouco de sua trajetória? Edson Kayapó: Sou filho de Kayapó, mas nasci no estado do Amapá, na margem do rio Amazonas, numa grande aldeia que hoje é a cidade de Macapá. O lugar onde nasci era a periferia da cidade de Macapá, mas devido ao crescimento exagerado da cidade, hoje o lugar é um bairro da cidade. Nossa família era muito pobre, meus pais analfabetos. Minha mãe era uma espécie de pajé, conhecedora de muitas plantas e remédios naturais; meu pai era mecânico. No início dos anos 1960 eles migraram do Pará rumo à região do Amapá, em busca de alternativas de emprego prometidas por aquele grande empreendimento mineral capitalista na Amazônia, a Icomi - que deixou um grande rastro de destruição e miséria na Serra do Navio e região. O Amapá e o Oiapoque, em especial, são lugares de muitas tensões sociais e pobreza... BdF: O que mais a universidade significou para você? Edson: Se tinha acompanhado o processo da Constituinte (1987-88) como um simples observador no Rio, já em 1989 a universidade foi o lugar onde assumi a luta política, no movimento estudantil. O marxismo era muito presente na época por conta dos recentes movimentos no leste europeu e na ex-União Soviética, bem como devido as primeiras eleições diretas pra presidente e a redemocratização do país. Eu fui ficando próximo ao PC do B e a alas do PT, além de ter um contato muito próximo e fraterno com correntes anarquistas, que eram muito presentes no movimento estudantil mineiro naquele momento. BdF: Como era e como é hoje em dia esta relação com certas tradições originalmente "brancas", inclusive aquelas mais radicais de resistência, como muitas correntes marxistas? Edson: É interessante porque foi por meio de minha atuação na esquerda política que reafirmei minhas origens indígenas. Penso que os marxistas de todas as vertentes são aliados. Mas por outro lado, de forma geral, estão muito distantes da profundidade que tem a questão indígena: a perspectiva de classe apenas, num país como o Brasil, não é suficiente para explicar e responder às questões sociais. Até porque Marx nem poderia se propor a discutir, na Europa do século XIX, a questão indígena: ele estava interessado na formação e nas contradições da sociedade industrial. Miryam Hess: Trata-se de um longo processo histórico envolvendo a dominação e o racismo, que neste Continente (Aby Ayala) começa a se reverter somente agora, após mais de 500 anos de resistência indígena continental, com a subida ao poder de Evo Aymara [Morales]. Edson: Mas então, voltando... O grande salto mesmo de minha reafirmação indígena foi quando retornei ao Amapá, para trabalhar dando aula no Oiapoque, na formação de professores que atuavam nas escolas indígenas. Interessante porque isso ocorreu depois de me graduar e ter feito uma especialização lato sensu em História e Historiografia sobre a Amazônia... Percebi o quanto as pessoas têm uma concepção de história que exclui muitas histórias, além de ter começado a atinar para toda a dimensão da questão amazônica. BdF: E como foi este retorno ao Amapá? Edson: Foi muito difícil e intenso. Primeiramente fui sem nenhum emprego ou garantia da minha sobrevivência material, além do que minha companheira - Dandara - foi comigo. Passei vários meses vivendo com a ajuda dos parentes. Foram nove anos atuando em várias esferas políticas: movimento sindical (de professores), movimento ambiental (e indígena) - estes dois que eu não consigo separar. E quando você começa a tocar em alguns grandes interesses, com informação e coragem, a reação é muito violenta na localidade.. ameaça de morte, agressões físicas etc. BdF: A história parece que sempre se repete, cada vez mais trágica... Edson: Pois é... Quando meu pai saiu do Pará para o Amapá nos anos 60, em busca de emprego na Icomi, já se via vagões e vagões carregando toneladas de manganês para o porto de Santana-AP, e de lá, toda aquela riqueza atravessava o Atlântico. A Icomi, aliás foi um dos pioneiros mega-projetos capitalistas na destruição da Amazônia. Eles se instalavam numa região, ficavam por vários anos retirando tudo que podiam, e depois saíam fora, deixando favelas cheias de gente numa miséria só. O minério de manganês (e o arsênio produzido com ele), devastaram áreas gigantescas, poluindo terras e rios, e causando vários tipos de doenças físicas e psíquicas, no curto e médio prazos. Inclusive o câncer. A gente denuncia, mas sempre tem algum laboratório norte-americano para atestar "cientificamente" o contrário. E aí a "Justiça" acaba acreditando em quem? No nosso povo tradicional e sem escolaridade ou no laudo científico dos gringos? BdF: É nesse sentido que você defende enfaticamente a importância da autonomia indígena em seus territórios? Edson: Exatamente... Me parece que o movimento agora é, cada vez mais tirar a autonomia indígena. As 19 condicionantes aprovadas pelo STF têm esse objetivo. Eles demarcam, mas tiram a autonomia e criam um monte de cláusulas e brechas para poderem explorar os recursos que lhes interessam. Essas condicionantes são um verdadeiro golpe, inconstitucional, contra a autonomia indígena e de lesa-humanidade. Eu estou ansioso para ver a reação dos parentes de Roraima, e dos demais pelo Brasil... Miryám Hess: Esta súmula do Ministro Menezes Direito e as 19 condicionantes (18 delas por ele propostas e) aprovadas pelo STF são, realmente, inconstitucionais. O papel a que estes ministros estão se submetendo envergonha o País ao trabalharem para os interesses do agronegócio, dos grandes lobbies de mineração... A idéia deles é que tais condicionantes se estendam para as cerca de 227 áreas que estão declaradas para demarcação, além dos mais de 50 povos declarados "ressurgidos" (termo usado na antropologia) ou "resistentes" (como dizemos nas lutas indígenas). Na prática estão querendo facilitar a destruição de todas estas terras indígenas para os piores modelos de desenvolvimento, aqueles que mais degradam irreversivelmente os ecossistemas Edson: Mas não vamos parar por aqui, e agora temos uma série de territórios que urgentemente precisam ter a demarcação contínua garantida: como a situação dos parentes Guarani-Kayowás do Mato Grosso do Sul, que têm vivido uma situação terrível nos últimos anos, com altíssimas taxas de suicídio entre jovens, sem falar dos homicídios que sofrem constantemente. BdF: É a mesma situação que os Xicrin estão enfrentando ali perto, na região da Serra dos Carajás, sobretudo por conta dos antigos e novos mega-projetos da Vale do Rio Doce (como o Onça-Puma e o Salobo), que já estão poluindo importantes nascentes e afluentes que desembocam no rio Tocantins e no rio Marabá... Edson: É genocídio, não tem outra palavra! Os indígenas passaram milênios na Amazônia e conseguiram conhecê-la profundamente, respeitá-la e preservá-la, enquanto a civilização científica capitalista, além de massacrar brutalmente nosso povo, em poucos anos a tem desmatado e destruído progressivamente, como nunca antes. BdF: O projeto de lei para liberação da mineração em terras indígenas vai nessa mesma linha? Ou traria algum benefício para as comunidades originárias? Edson: Este projeto de lei não passa de uma tentativa indecente de esmola para os indígenas: cerca de 3%. Os indígenas não querem, não porque sejam bobos, mas porque sabem que isto vai destruir a Amazônia. Ou você acha que eles não sabem que há minérios, mogno e muitas outras riquezas em suas terras? Os Kayapó que chegaram a fazer algumas dessas atividades hoje já não fazem mais, porque tomaram consciência do risco de destruição da vida. Miryám Hess: A proposta de lei de mineração em terras indígenas fere os artigos 231 e 232 da Constituição Federal; fere também a convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho; e a própria Convenção dos Povos Originários (ONU). O movimento indígena já está mobilizado para fazer essas denúncias e resistir contra sua aprovação, inclusive em tribunais internacionais. BdF: Aqui voltamos ao abismo de linguagem e de conhecimento entre os tribunais "brancos" e a realidade indígena... Edson: Pois é... Nessas ocasiões, nesses grandes encontros, existe uma dificuldade muito grande dos indígenas se comunicarem em pé de igualdade por causa da barreira da linguagem, e da concepção de mundo mesmo. Por isso a importância dos parentes se apropriarem desse conhecimento acadêmico. E não estou desqualificando os parentes sem qualificação acadêmica.... Muito pelo contrário: geralmente a academia cria teorias que abstraem e distorcem a realidade. E que são criadas para isso mesmo. Falam de qualquer assunto sem os pés no chão. Nosso compromisso é outro, é com nosso povo indígena. Não quero virar um acadêmico de gabinete, porque aí mano... Miryam Hess: É preciso avançar nas criações de Cátedras Indígenas, conforme propostas por Marcos Terena. Só é considerado acadêmico o pensamento eurocêntrico. A gente quer que a ciência indígena e a ciência africana sejam incorporadas nos currículos. Esta prostituição deliberada da chamada ciência (eurocêntrica) em relação a interesses econômicos remonta à origem do capitalismo, a deturpações fundamentais das concepções científicas do próprio Isaac Newton... BdF: Nesse sentido, Edson, você enxerga com bons olhos a Lei 11.645/2008, que defende a obrigatoriedade do Ensino de História e Cultura Afro-brasileira e Indígena nas escolas? Edson: A lei 11.645/2008 é mais ampla que a lei 10.639/2003. Esta criou a obrigatoriedade do ensino da cultura afro-brasileira nas escolas, enquanto a 11.645 de 2008 abrange tanto a cultura afro-brasileira como a indígena. O movimento negro atualmente é muito mais forte, até porque tem forte presença nas cidades. Nossa voz vem mais do campo, onde o tempo é outro e muitas vezes ela demora pra chegar aos meios formadores de opinião. Não que não estejamos presentes nas cidades, mas os territórios indígenas em áreas urbanas foram violentamente atingidos pela lógica da expansão imobiliária, com todas suas consequências, e nossos parentes muito enfraquecidos. Porém, é mais coerente que o movimento negro e indígena unam forças. BdF: Por tudo que você diz é a favor das cotas para indígenas nas universidades... Edson: Claro que sim. Inclusive faço parte de um grupo na PUC-SP, que defende as cotas para indígenas nas Pós-Graduações. Porque se nas graduações você ainda vê um ou outro negro, um ou outro indígena: nos programas de pós é muitíssimo raro, quase impossível! BdF: E você sinceramente acredita que seja possível avançar rumo a um respeito maior às perspectivas, tradições e conhecimentos indígenas? Edson: Eu sou sempre otimista, embora seja muito difícil lutar contra todo este sistema consolidado. Agora, se o modelo científico civilizatório capitalista é tão bom mesmo, por que a humanidade está correndo o risco de se extinguir? Ou ela tem pela primeira vez na história a humildade de assumir seus limites e sua ignorância... Ou... BdF: Em que medida você acredita que a idéia de religião (como re-ligação de algo previamente separado... homem e natureza; corpo e espírito...), e em particular o cristianismo, tiveram também impactos nesse menosprezo da cultura e conhecimento indígenas? Edson: O cristianismo separou o espírito e a matéria; aqui é o sofrimento, lá o paraíso. Que bom que hoje podemos contar bastante com o CIMI [Conselho Indigenista Missionário] em muitas lutas... Agora, o indígena também tem o seu lugar dos mortos, mas para nós é outra coisa muito diferente, e é muito importante o equilíbrio. O sagrado é a relação entre nós, e entre nós e nosso meio. A relação da mãe Terra com seus filhos é constitutiva, não algo externo. Neste sentido que eu chamava a atenção para a concepção de "des_envolvimento dos juruás", que vai contra nossa concepção de interdependência constitutiva entre os seres. ************* QUEM É EDSON KAYAPÓ? QUEM É MIRYÁM HESS? Marília Miryám Hess Rondani é bacharelada e licenciada em Geologia na USP, e pós-graduada em Energia na mesma universidade. Atualmente é conselheira no Conselho da Rede GRUMIN de Mulheres Indígenas (www.grumin.org.br). * Agência Brasil de Fato. Uma visão popular do Brasil e do Mundo - Fonte: http://www.adital.com.br/site/noticia.asp?boletim=1&lang=PT&cod=38462
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